Mafia: The Old Country - uma perspectiva histórica
Em agosto de 2025, a Hangar 13 lançou o quarto game da franquia MAFIA, Mafia: The Old Country. Inovando o gênero como o primeiro jogo com uma lore ambientada na Sicília do início do século XX, a trama principia na cidade fictícia de San Celeste, donde procede o clã Torrisi, a principal família do game, na qual o protagonista Enzo Favara tenta ascender pessoal e socialmente.
Depois da trilogia ambientada nos EUA contemporâneo, Mafia: The Old Country retorna às “origens” da cultura mafiosa, distanciando-se do universo ítalo-americano para recuperar o ethos camponês das famílias sicilianas que gestaram um tipo de criminalidade singular na Itália unificada.
De início, Mafia: The Old Country parece querer dar aos seus personagens o papel de conservadores da “italianidade”, a partir de diálogos em que os uomini di onore lamentam a “fuga” de seus conterrâneos para a América do Norte. Essa “italianidade” permaneceu latente nas máfias ítalo-americanas, com diversas contradições. Era comum, p. ex., as máfias já consolidadas nos EUA só admitirem chefias de origem siciliana (daí napolitanos como os Capone nunca terem assumido a chefia de famílias, embora fossem gângsters reconhecidos e lembrados até na literatura romântica). Estranhamente, essas mesmas máfias aceitavam membros judeus (cuja participação na vida das famílias ítalo-americanas foi crucial para a expansão da jogatina nos EUA e em Cuba). É fato que, sem o apoio de judeus como Meyer Lansky, mafiosos como Lucky Luciano nunca teriam expandido tanto seus negócios em Cuba (que Lucky sonhava em povoar de cassinos desde os anos 1920).
Outro aspecto digno de nota no game - e que, ao meu ver, corrobora a tese hobsbawniana sobre as origens da máfia siciliana - é a ênfase da lore nos aspectos socioeconômicos da Sicília do início do século XX. No desenrolar do game, a lore revela que as lutas entre as famílias locais envolvia o próprio processo tardio de industrialização da ilha. As famílias mais dispostas a investir no progresso tecno-industrial de Palermo pretendiam, fazendo acordos com os barões locais, lotear suas terras, expulsando delas as máfias rurais.
Para Eric Hobsbawm, a máfia surgiu exatamente assim: eram grupos de bandoleiros que, ocupando pela força o vazio deixado pelo senhorio feudal siciliano, atuavam como mediadores entre o campesinato e o baronato. A importância desses agentes sociais mediadores chegou a tal ponto que os barões arrendaram suas terras para os mafiosos, que criaram a omertà - código ético-moral transgeracional que ao poucos foi abandonado pelos mafiosos que imigraram para a América do Norte.
Um exemplo muito curioso de mediação realizada pelos mafiosos era a chamada componenda, um sistema privado e informal para a devolução de bens roubados. A vítima de roubo tinha seus bens devolvidos depois de pagar o valor deles em dinheiro ao ladrão (na maioria dos casos, o próprio bandoleiro que os "recuperou").
Concordo com Hobsbawm que a máfia, enquanto agente da revolução burguesa na Sicília, nasceu e se cristalizou junto com o Estado italiano até sua unificação, sobrevivendo às revoltas anti-bourbônicas e ao conflito entre Nápoles e as Duas Sicílias. Portanto, é um equívoco tomar a máfia siciliana como um resquício do feudalismo local ou como símbolo de atraso sociocultural - ao contrário, a máfia consolidou a revolução burguesa na Sicília, tendo participado não apenas do desenvolvimento industrial de Palermo, mas também na criação de latifúndios produtores de cereais e cítricos (sobretudo vinhos).
A tese hobsbawniana sobre a origem da máfia siciliana é corroborada também por guerras locais ocorridas ainda no contexto da unificação italiana, como a guerra entre as famílias Badalamenti e Amoroso já em 1874 visando o controle latifundiário. Assim, fica claro que as máfias rurais tinham suas próprias lutas de classe. Guerras como essa ocorreram também em finais do século passado: na cidade de Corleone, o número de mortos decorrente da guerra local entre famílias deflagrada em 1958, chegou a 1 mil em 1985.
Um terceiro aspecto notável de Mafia: The Old Country é a sua ênfase no pacto de sangue (pacto di sangu) como fundamento ontológico da máfia siciliana. O protagonista Enzo Favare, ao realizar o ritual de ingresso no clã Torrisi, oferece sua própria vida como garantia de que nunca violaria a omertà. Graças à essas crenças quase religiosas, as famílias sicilianas desenvolveram uma cultura em que sicários e capos são vistos como super-homens, ligados ao clã por um juramento inquebrantável.
Boa parte dessa “religiosidade” é baseada em mitos fundacionais. Havia a lenda dos três irmãos templários - Osso, Mastrosso e Carcagnosso - que teriam dado origem à máfia ainda no Medievo central, bem como a lenda dos Beati Paoli, uma seita rural, que teria emergido no sul da Sicília ainda no século XII para defender os camponeses dos nobres locais inescrupulosos.
Mafia: The Old Country, embora tenha uma lore extremamente linear, conseguiu reproduzir, num espaço temporal curto (1904-07), todos os elementos socioculturais e parapolíticos mencionados, faltando apenas alguma referência ao separatismo siciliano (que as máfias sicilianas também promoveram, com destaque para o partido Sicilia Libera, fundado na década de 1990, e que foi usado como instrumento de pressão contra o Estado italiano durante as negociações da Trattativa com os Corleoneses).
Fontes
IÑIGO DOMÍNGUEZ GABINA.Crónicas de la Mafia, 2018. Editor digital: Titivillus.
SALVATORE LUPO. Historia de la mafia Desde sus orígenes hasta nuestros días, 2015.
ERIC HOBSBAWM. Rebeldes primitivos. Estudio sobre las formas asociadas de los movimientos en los siglos XIX y XX, 2015. Traducción: Joaquín Romero Maura.

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