Madame Crysanthème e a narrativa gótica feminina em A Mulher dos Olhos de Gelo
O elemento gótico no A Mulher dos Olhos de Gelo (1935)
"Ela, como uma cobra, desvencilhou-se rapidamente dos meus braços e, mergulhando nos meus os seus olhos, semelhantes a lagos sem fundo, exclamou, com azedume e quase violência:– Vou perder, por tua culpa, a minha virgindade e deixar de ser casta como as esposas de Cristo, declarou-me ela soluçando." (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 33-34).
Com essa declaração odiosa de sua esposa Helena, começaram os suplícios do ex-capitão do Exército Maurício de Alencar, que culminariam na sua condenação a 12 anos de de detenção na Casa de Correção do Rio de Janeiro por uxoricídio (o assassinato do cônjuge). O capitão é o personagem central do drama A Mulher dos Olhos de Gelo, obra escrita por Cecilia Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcelos em 1935. Filha da também escritora Emília Moncorvo, Cecilia assinava seus escritos com o pseudônimo Madame Chrysanthème.
A autora produziu, a partir dos 38 anos, cerca de quinze livros - obras que, por não atenderem ao cânone literário modernista, foram marginalizadas da própria literatura feminina brasileira. Os escritos de Chrysanthème se caracterizam por explorar o comportamento social feminino e problematizar os discursos de gênero dominantes (que acusavam transgressões e/ou imoralidade nas agentes femininas que não lhes correspondessem).
Porém, mais que um drama sinistro (cuja ambientação recorda ao leitor o Drácula de Bram Stoker e o Frankenstein de Marry Shelley), A Mulher dos Olhos de Gelo atende às características do gênero literário gótico dos séculos XIX e XX. Não obstante, constitui uma obra típica do gótico feminino, em que o comportamento social da mulher é central, uma vez que as razões do assassinato de Helena de Araújo estão relacionadas a convivência com seu marido Maurício, delineada pelo estupro sofrido pela personagem. A partir da leitura crítica do livro, podemos identificar os elementos literários próprios da escrita gótica no drama sinistro de Madame Chrysanthème.
O ambiente gótico da Casa de Correção do Rio de Janeiro
A escrita gótica têm, como elemento literário mais característico, a imersão do leitor em ambientes solitários, amedrontadores e, em termos genéricos, depressivos. O locus horribilis (do latim, lugar que causa horror) explorado pelo autor(a) gótico(a) materializa as emoções dos personagens da narrativa - e tem sempre como marcador uma temporalidade presentista dominada pela memória dum passado atormentador.
No A Mulher dos Olhos de Gelo, Chrysanthème faz o leitor transitar entre dois locus horribilis: a residência da família Araújo em Copacabana e a Casa de Correção da Rua Frei Caneca, ambos situados na cidade do Rio de Janeiro.
Situada entre o centro da cidade e o bairro do Catumbi, a antiga Casa de Correção se torna o cenário da luta de Maurício de Alencar. Após a condenação por uxoricídio, o jovem capitão de trinta e três anos não compreende como estrangulou a própria esposa. Lastimando a condição de criminoso, Maurício culpa Helena de Araújo e seu núcleo familiar - Dona Isidora, então matriarca, Júlio, irmão mais velho, e Estela, a irmã do meio, e a mais desenvolta dos três - pela convivência conturbada com a esposa. Quando seu amigo íntimo, o médico Jorge Cavalcanti, o visita na penitenciária, o ex-capitão esbraveja contra os Araújo, culpando a família pelo assassinato:
"A sua família - mãe, irmã e irmão - receberam-me afetuosamente, embora eu notasse sempre, debaixo das suas frases fagueiras, certo menosprezo, certo desdém mesmo, pelos meus simples emblemas de tenente. A irmã, sobretudo, moderníssima, com ideias de louca, foi o primeiro algoz nesse lar, que me tornou, conforme dizem, um criminoso. Fumava como um reles taverneiro e, entre as volutas da fumaceira dos seus cigarros, soltava as mais injuriosas invectivas contra os maridos, sem dinheiro, mas de galões..." (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 29).
A penitenciária, para Maurício, o livrou da convivência torturante da casa na Zona Sul da cidade. A dor interior do ex-capitão era tanta, que, sendo ateu e positivista por formação, Maurício assumiu um tipo de religiosidade auto-penitente, de tal modo que as suas visitas à Capela penitenciária o tornaram "mais sofredor" que o próprio Jesus crucificado. Tal postura do personagem de Chrysanthème pode indicar uma crítica aos diferentes usos da religiosidade cristã em seu tempo, que nem sempre implicavam, por parte de seus agentes, em mudanças de conduta social. Antes do fim de sua visita ao amigo criminoso, Jorge recebe de Maurício um caderno com seu depoimento, onde o personagem narra toda a convivência conturbada com a esposa e sua família. Lendo o relato após chegar em sua casa, o médico se depara com a seguinte declaração do amigo:
"Faz, esta manhã, um lindo dia de maio e o sol enche de claridade esta negra morada. Lá fora, reina o movimento diário de guardas que passam, de presos que trabalham, de indivíduos que entram e saem... Recebi uma carta de Guida pela secretaria da prisão e outra de Lourdes, adorável, de ternura e de esperança, pela mão do homem daqui que ela comprou. Com ambas no bolso, lidas e relidas, recomeço a escrever, no silêncio desta Capela, aos pés deste Crucificado, que, digam o que disserem, não sofreu mais do que eu". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 110).
Podemos identificar nessa postura de Maurício de Alencar um questionamento à religiosidade católica, que, para o criminoso, afetou seu casamento desde o princípio. O ex-capitão personifica em si todo o sofrimento concebível, assumindo uma postura quase vicária em relação aos demais personagens, tendo sofrido mais que o próprio Deus encarnado. Maurício via, nessa religiosidade que define como "histérica", a razão do ódio de Helena de Araújo por ele - graças à sua obsessão pela "virgindade consagrada a Cristo", sua esposa o condenou à um "casamento josefino":
"Então eu desposara uma fanática, uma histérica, uma doente, vítima das lengalengas religiosas, submissa a um sacerdote, a quem ela confia os mais íntimos segredos da sua vida conjugal e para quem o marido é uma de satanás do lar e do leito!". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 35)
O nascimento de sua filha Guida foi, para Maurício, o ápice de seus suplícios. Convivendo com os Araújo em Copacabana, o personagem era ignorado quando tomava a palavra nas conversas à mesa, além de receber um tratamento indigno para um militar, o que o tornava impotente diante dos familiares da cônjuge:
"Nesse período da minha existência, sem dignidade e sem compostura, eu me sentava no fim da mesa, numa cadeira sem espaldar, enquanto os alimentos me eram empurrados como a um animal. E o contraste havido entre a minha trabalhosa vida no quartel e a ultrajante que me davam naquela morada familiar me enlouquecia sem que eu ousasse, entretanto, tomar uma decisão, digna e viril." (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 52)
O único refrigério que Maurício de Alencar recebia na residência dos Araújo era Maria de Lourdes, amiga íntima de Helena. No relato, certa vez, o ex-capitão ouvia, escondido, um diálogo entre ambas acerca dele. Maria de Lourdes, não rebatendo às acusações da esposa contra ele, apontou-lhe suas qualidades:
"- Ele é, porém, um bonito e inteligente rapaz, muito bem-visto no Exército - tentava defender-me a outra, que, pela voz, reconheci ser a Maria de Lourdes, a amiga mais íntima de Helena." (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 56)
Maurício, já apaixonado por Maria de Lourdes, lamenta, no relato, não tê-la assumido antes do uxoricídio - para ele, o ato não teria ocorrido se tivesse assumido uma nova relação com a jovem. Dali, nasceria uma paixão mútua, que culminaria na absolvição do ex-capitão pelo assassinato da esposa ao final da narrativa:
"Lourdes, minha doce Lourdes, por que não correspondi eu, essa tarde, ao teu olhar, e não te tomei pelas mãos pequeninas, levando-te comigo para fora daquela casa, onde se daria o crime que, afinal, não pratiquei, visto que a razão me abandonou, na hora em que, talvez, os meus dedos agiram sem o seu domínio!?". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 58)
A negação persistente de Maurício de Alencar de que teria de fato estrangulado Helena nos permite analisar em que a figura do monstro, própria da narrativa gótica, corresponde a esse personagem.
O monstro Maurício
Outro elemento literário próprio da escrita gótica é a presença de personagens de caráter monstruoso na narrativa. O caso do Frankenstein de Mary Shelley é notável: é uma criatura artificial, que, ao encontrar registros escritos sobre os processos mirabolantes que lhe deram origem, amaldiçoa seu criador:
"[...] - Todos os homens odeiam os desgraçados; como devo ser odiado, eu que sou a mais infeliz entre as criaturas vivas! Ainda assim, tu, meu criador, detestas e rejeitas a mim, tua criatura, a quem estás preso por amarras que apenas a aniquilação de um de nós pode dissolver. Pretendes me matar. Como ousas divertir-te assim com a vida? Cumpre teu dever em relação a mim, e cumprirei o meu em relação a ti e ao restante da humanidade. Se aceitares minhas condições, deixarei os outros e a ti em paz; mas se recusares, irei seguir meu apetite pela morte, até estar saciado com o sangue de teus amigos restantes". (SHELLEY, 2019, p. 185)
Porém, ao contrário de Shelley, Madame Chrysanthème explora a monstruosidade dos personagens de A Mulher dos Olhos de Gelo no âmbito psiquiátrico. Trata-se, podemos indagar, duma tentativa de individualizar em muito as disposições maléficas dos personagens (ao contrário de Frankenstein, que externa sua ira pela violência discricionária)? É válido afirmá-lo, pois o objetivo de Chrysanthème é, com o crime de Maurício e os atos impiedosos dos Araújo, criticar o ethos social de seu tempo.
Não obstante, a psique de Maurício de Alencar não se adapta logo ao ambiente da Casa de Correção, o que nos permite afirmar que o personagem não "nivela" de modo imediato as relações entre os presidiários. Na medida em que cumpre sua pena, o ex-capitão ainda interpreta como antinaturais práticas sócio-afetivas que, no contexto histórico-social da narrativa, são reprovadas, como o homossexualismo. Presenciando um conflito passional entre dois detentos de celas vizinhas, Maurício afirma sua reprovação:
"As paixões anormais vicejam aqui naturalmente como flores nos canteiros e esses dois homens, que se uniram por laços vergonhosos, pareciam gozar de um direito humano e justo...". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 92)
Percebemos essa gradação no processo de adaptação de Maurício de Alencar à vida na penitenciária justamente quando afirma que, mesmo que os outros detentos já naturalizassem o sofrimento e a morte, ele mesmo ainda não desenvolvera essa fria neutralidade para com o semelhante:
"O presidiário não se espanta de coisa alguma: o seu fundo emotivo está gasto ou suspenso. Ele julga tudo possível e tudo natural. A vida, nesta casa, muda de nome e a morte, de expressão...". Entretanto, eu ainda não adquirira, nessa fase nova da minha existência, a necessária e usual neutralidade pelas desgraças alheias. Depois, o estado de minha alma naquela manhã, era de profunda emotividade por mim e por meus companheiros de desventura e, assim, encontrando os olhos lacrimosos de um homem, robusto e jovem, experimentei tremenda e invencível sensação de piedade pelo infeliz, cuja angústia, no entanto, ignorava". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 73)
Parece que Maurício, sob a pena de Chrysanthème, reluta em assumir uma condição monstruosa - e também porque, se a assumisse, o faria sob condições degradantes, totalmente diferentes das da vida militar. Trata-se, podemos questionar, dum tipo de narrativa gótica que, sim, adota o elemento literário do monstro, porém, numa perspectiva não-essencialista, que não concebe a monstruosidade como um dado natural do(s) personagem(ns), mas sim como uma reação individual desproporcional do(s) agente(s) da narrativa aos conflitos internos (no caso de Maurício de Alencar, psiquiátricos) e externos que enfrenta? Uma vez que Maurício afirma sequer ter noção de como e por quê cometeu o uxoricídio, é razoável afirmar isso.
As características monstruosas do criminoso transparecem ao longo da narrativa, porém, sempre são sublimadas por seu amor por Guida. O amor paternal pela pequena filha era tal, que Maurício se culpa por não tê-la raptado da família; em sua última discussão com Helena, que culminou em sua morte, o ex-capitão afirma o quanto queria blindar Guida de Araújo de seu contexto familiar conturbado:
"[...] - Entregar-lhe a minha Guida, nunca o admitirei, ouviu bem? Vocês pensam que não compreendo onde tendem as suas perseguições e calúnias? Querem transformar a minha filha em rata de igreja, em beata supersticiosa, em gado de padres e das freiras e, em tal, jamais permitirei, entenderam? Deem-me Guida e eu abandonarei esta casa para sempre...". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 133)
Percebemos que Chrysanthème revela a monstruosidade do personagem paulatinamente, cujo ápice foi o estrangulamento da esposa. Ao longo da narrativa, Jorge Cavalcanti não aparece - o médico é o agente passivo do drama, o leitor dos relatos escritos por Maurício em seu caderno. Os traços do "monstro Maurício" aparecem nitidamente em seu diálogo com o ex-farmacêutico Nephtali. Condenado por assassinar a esposa adúltera, o criminoso relata sua sina ao ex-capitão, culpando e demonizando sua vítima:
"[...] - Imagine o senhor que vivia sossegado na farmácia, de que era o prático, quando surgiu, na minha existência, aquela mulher... Ela exigia dinheiro, quando eu só tinha amor para lhe oferecer. E, um belo dia, soube que ela me traía! Duvidei, entretanto - os homens apaixonados agarram-se tanto às ilusões! -, ou procurei duvidar, o que dá no mesmo. Mas, numa tarde, ela me apareceu na farmácia, e, com um riso cínico, mostrou-me duas pulseiras de ouro, que o meu substituto lhe havia dado. Enxotei-a dali, ameaçando de lhe romper os ossos. A maldita, porém, rindo sempre, entrou a gabar a generosidade e a robustez do seu novo amante até que me cuspiu no rosto. Fora de mim, com o sangue a ferver, agarrei no meu revólver, detonando-o sobre ela. Só voltei a mim quando a vi, estendida no chão, com as duas pulseiras a cintilarem aos raios de sol que entravam pela porta... E aqui estou por ter morto aquela pérfida cadela....". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 60)
A demonização da pessoa feminina cria, na narrativa gótica (masculina e/ou feminina), o arquétipo da femme fatale (do francês, mulher fatal ou perigosa). Madame Chrysanthème, bem como toda a literatura feminista de seu tempo, contrapõe, no A Mulher dos Olhos de Gelo, esse arquétipo ao da Nova Mulher - a pessoa feminina cujo comportamento social atende aos discursos de gênero dominantes. Na narrativa, Maurício de Alencar conhece outro detento, Joaquim Pedro, que lamenta não estar junto da esposa e de seu filho, pois crê que ela o trai e o filho já considera o amante como pai. Joaquim, tanto quanto Maurício, enxerga, na pessoa feminina, um comportamento "enervado", histérico de fato, como se fosse impossível à mulher evitar o coito ou ao menos as prática sexuais em geral:
"[...] - Maria é boa e jura, sempre nos domingos que me vê, a sua constância e o seu amor. Como é possível que me tenha enganado, quando eu, aqui, estou por tê-la defendido? Capitão, a cadeia não é nada, se uma mulher nos ama lá fora e nos segue com o pensamento. Mas, sozinhos e traídos, antes quebrar a cabeça numa dessas muralhas. Esperar é muito cansativo para uma mulher!". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 76)
No entanto, Chrysanthème apresenta Maurício de Alencar como um sujeito assolado por impulsos e fetiches sexuais tão agressivos quanto os que os personagens enxergam na pessoa feminina (e aqui temos mais um traço de sua monstruosidade, alimentada pela misoginia):
"Nessas horas, em que a minha masculinidade uivou dentro de mim, eu fui um verdadeiro animal no cio, capaz de todas as violências, de todas as covardias, de todas as torpezas, a fim de satisfazer a fúria sexual que me enfebrecia até o delírio. Com o pensamento, despia Lourdes daquele singelo fato escuro e pensava quanto seria delicioso e divino apertar-lhe o corpo, fino e quente, morder-lhe os lábios, ligeiramente carminados e dobrá-la sob os ataques dos meus braços, ainda fortes de homem!". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 70)
Maurício lamenta pela vida de presidiário ter-lhe tirado os "valores de macho", e responsabiliza Helena de Araújo por sua condição. Cabe, portanto, pensarmos a personagem Helena a partir do arquétipo da femme fatale apropriado por Chrysanthème no A Mulher dos Olhos de Gelo e sua relação com o uxoricídio enquanto feminicídio qualificado.
A demonização da pessoa feminina em A Mulher dos Olhos de Gelo
Na narrativa de A Mulher dos Olhos de Gelo, os personagens femininos são todos arquetípicos. Dona Isidora e Estela, da família Araújo, são demonizadas por Maurício de Alencar, de tal modo que a responsabilidade pelo uxoricídio é atribuída a elas. O criminoso culpa Estela já em seu diálogo inicial com Jorge Cavalcanti, acusando-a de ter causado os primeiros distúrbios em seu casamento:
"E foi essa mulher, demivierge [do francês semivirgem] infernal e requintada de crueldade, a origem da primeira discussão entre Helena e eu... Porque, nunca, jamais, em tempo algum, minha mulher mostrou-se minha aliada, afirmou ser minha amiga, tentando defender-me ou simplesmente repelir a indireta ou a acusação com um gesto ou um monossílabo, ainda que vago ou indeterminado". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 29)
Chrysanthème expressa a misoginia do ex-capitão, sempre atribuindo à pessoa feminina um potencial danoso aos seus "valores de macho", também em sua relação com Maria de Lourdes. Pensamos que, aqui, o arquétipo da femme fatale transparece melhor que em sua convivência com Helena de Araújo: Lourdes, apaixonada por Maurício, acaba exercendo tanto domínio sobre ele quanto sua esposa exerceu. A auto-piedade do personagem é demonstrada também quando Maurício cede aos seus impulsos, como se fosse impossível para ele resistir às investidas da jovem:
"No centro do postigo, olho redondo, aberto no corredor, vigiado pela sentinela, jogaram-me há pouca uma carta da minha doce amada... Ela, naturalmente, comprou um dos guardas e envia-me linhas tímidas, consoladoras, perfumadas de amor... - Há muito que te quero - escreve-me ela - pelo teu sofrer, pela tua fraqueza, pela tua meiguice. Tirar-te-ei daí e a tua vida então me pertencerá. Estás de acordo?". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 89)
Helena de Araújo pode, sim, ter os traços típicos da femme fatale da escrita gótica, porém, sua monstruosidade não aparece na narrativa através duma maldade ativa, mas, p. ex., em sua ânsia de proteger a filha Guida do próprio pai. Num determinado momento da narrativa, a pequena Guida demonstra um medo terrível da genitora:
"Passara eu, todo o dia, a ler, encerrado no quarto, quando Helena, que saíra muito cedo a confessar-se, a comungar, voltou às 4 horas da tarde, mais gélida do que nunca. Brincava eu, nesse momento, com minha filha, contando-lhe histórias, que a divertiam, mas à brusca aparição da mãe, experimentamos, ambos, como um açoite de chicote gelado... A criança fugiu, debaixo de uma impressão indomável de terror, inspirado pelo rosto fechado de Helena, enquanto eu permaneci no mesmo lugar, analisando a fisionomia agressiva daquela criatura, acabava de ter contato com um Deus de bondade e ternura". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 113)
Não obstante, Chrysanthème insiste, na narrativa, como traço mais marcante de Helena enquanto femme fatale, o seu fanatismo religioso. O modo como Maurício de Alencar entende a religiosidade extremada da esposa condiz com a ideia, já explorada pela autora noutras obras, da "enervação feminina": seria uma disfunção antinatural que afetava pessoas femininas que agissem diferentemente, ou mesmo em oposição, aos discursos de gênero dominantes. Foi, movida especialmente pelo elã católico, que Helena de Araújo acusava seu estupro pelo marido na noite de núpcias:
"E, hoje, solitário, nesta atmosfera, viciada pelos maus fluidos, irradiantes de todos aqueles que a alimentam ou a respiram, penso que nessas noites perdi muito da minha dignidade de homem, muito do meu valor de macho, visto que minha mulher sofria os meus embates com a passiva imobilidade de uma estátua, a repugnância colérica de uma criatura violada...". (CHRYSANTHÈME, 2025, p. 48)
A partir desse último elemento literário da escrita gótica, podemos entender o feminicídio como um problema sociológico que o gótico feminino explorou, tanto pela pena de Madame Chrysanthème quanto de suas congêneres vintistas, pela perspectivas psiquiátrica e social.
O feminicídio no gótico feminino brasileiro
Tanto a escrita gótica masculina quanto a feminina brasileiras exploram a pessoa feminina em dimensões diversas, porém, é mérito próprio do gótico feminino apresentar a mulher como agente social transgressivo, que questiona, ou mesmo renega, os discursos de gênero dominantes. Podemos, então, considerar Madame Chrysanthème uma autora gótica feminina que, ao criar personagens femininos cujo comportamento social destoa dos padrões de convivência estabelecidos em seu tempo, inseriu o problema sociológico do femininicídio na escrita gótica brasileira antes mesmo de autores como Nelson Rodrigues, em seu romance O Casamento (1966) e Lygia Fagundes Telles, que escreveu, dentre diversos contos góticos, o Venha ver o pôr do sol (1970).
O tipo penal do feminicídio se destaca na escrita gótica feminina justamente por que não é possível equipará-lo às formas de violência habitualmente exploradas por autores góticos (estupro, agressões físicas e psicológicas, sequestros etc, cometidos contra a pessoa feminina motivados por misoginia masculina), visto que é propriamente uma violência de gênero, cometida contra o personagem feminino por assumir tal condição social.
Na narrativa de A Mulher dos Olhos de Gelo, praticamente todos os comportamentos do esposo Maurício de Alencar para com a cônjuge são motivados pela objetificação do corpo feminino, p. ex., nas referências constantes do ex-capitão ao desejo de despir e/ou manipular os corpos de Helena e Maria de Lourdes. A própria acusação constante de Maurício à "beatice" de Helena demonstra sua concepção depreciativa da agência feminina, mesmo no lar, pois o personagem entende que a identidade feminina deve estar necessariamente fundamentada no cuidado do lar e no coito marital. Durante toda a narrativa do A Mulher dos Olhos de Gelo, o "olhar glacial" da personagem Helena também indica como seu esposo a objetificava, recusando-se a enxergar nela quaisquer sentimentos para com ele ou sua filha Guida.
Não obstante a misoginia de Maurício de Alencar, outro traço curioso da narrativa que envolve o feminicídio da esposa é o estado de "inconsciência" que o ex-capitão alega durante todo o relato lido por Jorge Cavalcanti. Percebemos ser esse "estado de transe", ou "inconsciência", durante o ato do feminicídio uma característica da escrita que traz essa problemática. Tomando como exemplo a obra citada de Nelson Rodrigues, conseguimos ilustrar esse estado psíquico dissociativo na narrativa gótica. Num trecho de O Casamento, a personagem secundária Noêmia é esfaqueada, com um punhal, por seu ex-amante Xavier, movido por ódio devido à rejeição da jovem:
"Sai. Vai até o hall do elevador. Por um momento, encosta-se à parede, com medo de cair. Esperou alguns minutos. Depois, caminhou lentamente para o gabinete. Quando empurrou a porta, Noêmia estava de costas, usando a serrinha de unhas.
Xavier tira o punhal. Veio por trás e afundou-lhe o punhal nas costas, até o cabo. O punhal de penetração macia, quase indolor.
Xavier jamais entenderia o próprio crime. Fez tudo sem nenhuma premeditação, nenhuma, nenhuma. O crime começou de repente". (RODRIGUES, 2021, p. 408)
O amante, sem compreender seu próprio ato, percebeu a total passividade da vítima. A figura do punhal - bem familiar, guardado por gerações - é um signo de masculinidade para Xavier, pois o portava diariamente, até mesmo em seus passeios diurnos. O personagem entendia que havia "outro" no ato do feminicídio - tal como Maurício de Alencar, Xavier pensava não ter sido ele o agente causador da morte da ex-amante:
"Era como se fosse outro, e não ele, ou como se ele fosse apenas um espectador de si mesmo. O "outro" não parava. Noêmia estava morta e o "outro" a retalhava ainda. (E tudo tão sem grito)". (RODRIGUES, 2021, p. 410)
Com a passividade total de Noêmia, Rodrigues procura figurar a objetificação da pessoa feminina, uma vez que o assassino a desumaniza como ser impotente, incapaz de reação e/ou domínio sobre seu corpo. Maurício de Alencar teria cometido o uxoricídio sob um "transe" similar durante a discussão definitiva com Helena:
"De súbito, olhos nos olhos, aproximamo-nos mais um do outro... Eu segurara-a pelos ombros finos, enquanto ela punha, no olhar glacial, com que me fitava, todo o seu desprezo por mim, todo o ódio que eu lhe inspirava.
E minhas mãos foram subindo, subindo, na intenção de lhe agarrar o rosto, obrigando-a assim a desviar de mim, aquelas pupilas, que, frias como gelo, todavia me queimavam como se contivessem fogo...
Ela recuou um pouco e, meus dedos, que, das suas espáduas, se dirigiam, automaticamente, a seu rosto, pararam no pescoço que, como o de uma cobra, se dilatava, cheio de peçonha e de agressão... E, sempre olhos nos olhos, vi-a de repente baquear e estender-se no chão, onde continuou a me fitar com aquelas imensas pupilas, em que o gelo se ia vidrando e empanando. Estava morta...". (CHRYSANTHÉME, 2025, p. 133)
No drama sinistro A Mulher dos Olhos de Gelo, de Madame Chrysanthème, identificamos os elementos literários próprios da escrita gótica. O uso do ambiente gótico, a presença de personagens de caráter monstruoso na narrativa e a figura da femme fatale presente no discurso dos personagens masculinos nos permite compreender o problema sociológico do feminicídio (qualificado como uxoricídio, o assassinato do cônjuge) na perspectiva literária.
Chrysanthème, explorando o comportamento social feminino e problematizando os discursos de gênero dominantes em seu tempo através da escrita gótica feminina, transmite ao leitor os dilemas sociais e de gênero que a pessoa feminina enfrentou no século XX.
FONTES PRINCIPAIS
CHRYSANTHÈME [Cecília Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos]. A mulher dos olhos de gelo. Rio de Janeiro : Janela Amarela Editora, 2025
MENON, Maurício Cesar. Figurações do gótico e de seus desmembramentos na literatura brasileira de 1843 a 1932 / Maurício César Menon. – Londrina, 2007.
RODRIGUES, Nelson. O Casamento / Nelson Rodrigues. - Rio de Janeiro : Harper Collins, 2021
SANTOS, Ana Paula Araujo dos. A tradição feminina do Gótico: uma descrição de formas e temas nas literaturas brasileira e de língua inglesa / Ana Paula Araujo dos Santos. – 2022
SHELLEY, Mary. Frankenstein: ou O Prometeu moderno/Mary Shelley; tradução Santiago Nazarian. - 1.ed. - Rio de Janeiro: Zahar, 2020
ARTIGOS
Belle époque: ensaios críticos / Carmem Negreiros, Fátima Oliveira, Marcus Soares (organizadores) – 1. ed. – São Paulo : Garoupa, 2025
SANTOS, Ana Paula Araújo dos; SILVA,Lais Alves de Souza da. O gótico de Mme Chrysanthème: Crimes e mentes perturbadas em A Mulher dos Olhos de Gelo (1935). In n. 39 (2021): CADERNO SEMINAL - ESTUDOS DE LITERATURA: Escrita de Mulheres: prosa em língua portuguesa e comparatismos – e-ISSN 1806-9142. DOI: http://dx.doi.org/10.12957/seminal.2021.58298
IMAGENS
Madame Chrysanthème (Cecília Moncorvo Bandeira de Mello Rebello de Vasconcellos). Rio de Literaturas. Acesso em 29/05/2026. Fonte: https://riodeliteraturas.com.br/madame-chrysantheme.php
A Mulher dos Olhos de Gelo, 2025. Mockup do livro – crédito: Ed Janela Amarela. Acesso em 29/05/2026. Fonte: https://www.semanapop.com.br/a-mulher-dos-olhos-de-gelo-da-carioca-chrysantheme/
Arcos da entrada da Casa de Correção, inaugurada em 1850. Fonte: http://riodejaneiroqueeuamo.blogspot.com.br

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