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Mostrando postagens de maio, 2024

A sangre y fuego: o ciclo de violência na Colômbia e o retorno do paramilitarismo gaitanista

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  A situação na Colômbia não é comparável a do Brasil. Hoje, depois de 70 anos de guerra civil não-declarada, as guerrilhas de "extrema direita" e de "ultraesquerda" voltam a se enfrentar - e durante os processos de paz idealistas promovidos pelo petrismo. Os capos do Estado Maior Conjunto do Exército Gaitanista da Colômbia (as ex-Autodefesas Gaitanistas) publicaram um vídeo em rede nacional ameaçando o processo de justiça e paz iniciado pelo petrismo. Os chefes, reunidos em torno duma mesa, numa clareira de algum rincão do Urabá, se comprometeram a exterminar o ELN e suas dissidências. Segundo os paramilitares de "extrema direita", os guerrilheiros rivais, favorecidos por Petro, estão tentando retomar os territórios do norte do país, não estabelecer a tal "paz total". A Colômbia vive em guerra civil. Foi-se Pablo Escobar, que financiava ambas guerrilhas. Foram-se os irmãos Castaño, fundadores das autodefesas camponesas, respaldados pelo presiden...

Construir um paraíso entre os Andes e o mar: o fenômeno do uribismo e a guerra civil na Colômbia

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  A questão paramilitar segue em pauta na Colômbia. Apesar dos constantes atritos entre Bogotá e a direção nacional do ELN (Exército de Libertação Nacional), em 25 de maio foi assinado, na capital da Venezuela, o primeiro ponto concebido no acordo que reconhece o desenvolvimento do "processo de participação da sociedade na construção da paz." Na primeira semana deste mês, o ELN informou que retomaria a prática dos sequestros econômicos em resposta ao descumprimento do governo Petro em relação à criação e implementação do Fundo Multilateral para o Processo de Paz.  Em meio aos acalorados diálogos de paz, o ELN culpou o governo Petro pelo surgimento do que chamou de "suposta dissidência" sua em Nariño, e mesmo assim faz exigências.  Independentemente do que vai ocorrer ao fim do processo de paz na Colômbia (obviamente, se chegar a um termo), eu acredito que, com a derrocada do uribismo - a "extrema-direita" do país -, a Colômbia perdeu a oportunidade de afir...

Uma pequena Grécia na Europa Oriental: o que Rosseau propôs para a Polônia?

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  As críticas tradicionalistas ao pensamento rousseauniano são, a maioria delas, preconceituosas e a-históricas. Os críticos da Revolução Francesa consideram todo elogio a Rousseau como uma apologia do Terror, ou seja, da ditadura jacobina - o governo revolucionário do Comité de Salvação Pública. Jean Jacques Rousseau jamais pretendeu que os princípios gerais desenvolvidos no O Contrato Social fundamentassem a racionalização das ciência e práxis política, declarando ele próprio que seu famoso tratado de ciência política deve ser utilizado "não certamente como uma especulação puramente abstrata, mas também não como um sistema que se possa por diretamente em ação ou como uma coletânea de receitas onde se possa livremente colher". Nesse sentido, a filosofia política rousseauniana considera mais a realidade concreta de cada nação que a ciência política de hoje, onde um comentarista nunca entra nas relações sociopolíticas "de carne e osso", mas apenas analisa as ações in...

Castilhismo, o sacrário da República: a formação do pensamento autoritário brasileiro

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O historiador Décio Freita, no livro "O Homem Que Inventou a Ditadura no Brasil", nos leva à conclusão de que é impossível compreender o republicanismo brasileiro sem estudar o pensamento de Júlio de Castilhos. O positivismo castilhista, expressão regional dum autoritarismo violento (e para o qual os gaúchos já tendiam no Império, dada a dependência dos grandes estancieiros do governo estadual) teria moldado o pensamento centralista brasileiro. Diz Décio que "o protótipo castilhista de ditadura sempre extasiou os autoritários brasileiros de direita e esquerda, a começar, naturalmente, pelos gaúchos. Na longa crônica de ditaduras da América Latina, só no México medrou um sistema semelhante ao castilhista." (p. 202) Podemos dizer que Castilhos foi o primeiro "ditador perfeito" da América, tendo seu poder amparado na Constituição Estadual Sul-Riograndense da época. A carta estadual, impregnada do positivismo comtista, dava ao Presidente do Estado sulista (hoj...

Suas cabeças estão nos montes - vamos enterrá-las!: o bolivarianismo e as milícias populares na Venezuela

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 Os venezuelanos irão as urnas em 28 de julho, para ou reeleger Nicolás Maduro ou um opositor seu (e a oposição atual é tão nacionalista quanto os bolivarianos, embora haja uma confusão ideológica grande, sendo o chavismo-madurismo o fenômeno político mais coerente e ideológico na Venezuela).  Por mais que o seu regime seja, para mim, deplorável, temos que julgar Maduro de acordo com seu papel geopolítico e na estabilidade das instituições venezuelanas - e seria impossível manter essa ordem sem as Forças Armadas e a Milícia Bolivariana.  Não nego que o bolivarianismo tenha consenso social - e os anti-chavistas ganharam apenas 3 dos 23  governadores nas últimas eleições, perdendo também a prefeitura de Caracas. Grosso modo, acredito que os venezuelanos "se cansaram" de lidar com o chavismo, entendendo que é melhor ter esse governo que outro, novo e desconhecido.  Não tenho dúvidas de que, caso Maduro não seja reeleito, a Milícia Bolivariana - formada por cidadãos...

Nacionalismo ou nacional-bolchevismo? O comunismo ziuganovista

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  A questão nacional é, desde o período estalinista, um espinho na carne dos russos. Isso porque a Rússia, como uma típica entidade oriental, se concebe como civilização, e não como uma nação moderna (daí Plekhanov afirmar que a Rússia é, grosso modo, a China europeia).  Enquanto na Europa o nacionalismo têm recuperado fôlego (não entrando no mérito do "financismo internacional", tema raso e indigno de críticas aprofundadas), entre os russos o nacionalismo continua tendo conotação muito negativa.  Putin mesmo não pode ser enquadrado no nacionalismo pós-soviético - e acredito que seu discurso quando da invasão russa na Ucrânia deixou isso claro. O autocrata pisou não apenas em Lênin, a quem culpou de não matar o germe do nacionalismo ucraniano, mas também em Stálin, a quem responsabilizou por dar aos nacionalistas ucranianos em 1922 demasiado poder. Chegou a chamar o nacionalismo de praga ideológica.  A figura que melhor representa essa confusão teórica na política ru...

O enigma da autocracia eslava: mera tirania ou componente cultural russo?

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  Há que se ter cuidado ao analisar a natureza das autocracias eslavas e orientais (Oriente Próximo e Extremo Oriente especificamente). Nesses governos impera a ideia de que o poder central não só transcende o Estado mesmo, mas também que os partidos, quando se confundem com a função governativa, podem levar o Estado ao colapso (aqui cabe questionar se a república é o melhor meio do autocrata exercer seu poder, e eu creio que não).  Sobre a autocracia bielorrussa, é importante destacar o modo como os cidadãos julgam os partidos políticos anti-Lukashenko - tomando como base o número de filiados que eles têm em todo o país, bem como o número de parlamentares que conseguem eleger desde 1994.  Na realidade, nenhum novo partido político no país,  seja pró ou anti-Lukashenko, teve grandes sucessos eleitorais desde 2000. Além de serem anti-Lukashenko, os partidos da oposição na Bielorrússia tendem a posicionar-se no amplo espectro político da esquerda e da direita - o que t...

A sina do Presidente-Sol: a força do "presidencialismo monárquico" nos Andes e o ideal da Patria Grande

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  É absurdo que os estudos de ciência política sul-americanos, na maioria esmagadora dos casos, empregue métodos genéricos e a-históricos para analisar a natureza dos governos autoritários e autocráticos nos Andes. O caso venezuelano é o que melhor reflete isso.  Apesar de todas as suas fraquezas internas e a pobreza teórica de sua ideologia (sistematizada pelo próprio Hugo Chávez em seu Livro Azul), a Quinta República Bolivariana conseguiu conjugar na sua política interna os aspectos centrais do Discurso de Angostura, no qual Bolívar afirma que as verdadeiras repúblicas são as que tem um Executivo ilimitado, moralizante e unificador dos "sentimentos nacionais".  Não cabe, portanto, considerar o regime chavista-madurista apenas mais uma ditadura, sem nenhuma base histórico-social. Sempre imperou na Venezuela, desde sua independência, o princípio bolivariano do grande caudilho, sem o qual não há estabilidade e paz, mas apenas anarquia.  Podemos, com isso, avaliar os i...