Nacionalismo ou nacional-bolchevismo? O comunismo ziuganovista

 A questão nacional é, desde o período estalinista, um espinho na carne dos russos. Isso porque a Rússia, como uma típica entidade oriental, se concebe como civilização, e não como uma nação moderna (daí Plekhanov afirmar que a Rússia é, grosso modo, a China europeia). 

Enquanto na Europa o nacionalismo têm recuperado fôlego (não entrando no mérito do "financismo internacional", tema raso e indigno de críticas aprofundadas), entre os russos o nacionalismo continua tendo conotação muito negativa.

 Putin mesmo não pode ser enquadrado no nacionalismo pós-soviético - e acredito que seu discurso quando da invasão russa na Ucrânia deixou isso claro. O autocrata pisou não apenas em Lênin, a quem culpou de não matar o germe do nacionalismo ucraniano, mas também em Stálin, a quem responsabilizou por dar aos nacionalistas ucranianos em 1922 demasiado poder. Chegou a chamar o nacionalismo de praga ideológica. 

A figura que melhor representa essa confusão teórica na política russa é Guenadi Ziuganov, presidente do PCFR, maior legenda comunista do país desde 1993. 

No contexto das eleições nacionais de 1996, para cooptar votos da parcela russa não-comunista, mas que estava desiludida com o "liberalismo estatista", Ziuganov moderou seu discurso. Evitava falar diretamente em comunismo e socialismo e, praticamente, aderiu a um "socialismo democrático propriamente russo" e ao nacionalismo de esquerda para reunir as forças progressistas do país em defesa dos interesses coletivos.

 Guenadi enfatizava o caráter especial da civilização eurasiana e como esta era diferente das civilizações ocidentais "oceânicas" (como os Estados Unidos e a Grã-Bretanha). Ele vê a cultura política eruasiana como a expressão de uma tradição moral e histórico-cultural cujos valores fundamentais são o sobornost ("comunalismo") e o gosudarstvennost ("estatismo") e a "busca da corporificação dos mais altos ideais de bondade e justiça."

Para o "novo Stálin",  os agentes transmissores desses valores são  as nacionalidades. "Os sujeitos das civilizações, seus transmissores e protetores, o principal agente no palco da história mundial têm sido sempre, desde a antigüidade, os grupos étnicos: nações e povos ...".

Ele entende que "a Rússia corporifica seu próprio tipo especial de civilização, herdeira e continuadora da tradição milenar da Rus kieviana, do czarismo moscovita, do império russo e da União Soviética".  Numa perspectiva histórica positivista, o esforço de Ziuganov de congregar seus concidadãos em torno da "idéia russa" era tanto que chegava a afirmar:

"No nível da ideologia política, um dos meios mais fortes de reprimir a autoconsciência nacional da Rússia são as constantes tentativas de contrastar antagonisticamente, na mente das pessoas, os ideais nacionais 'vermelho' e 'branco'. Tenta-se convencer a opinião pública de que os períodos 'pré-revolucionário' e 'soviético' da nossa história são polarmente opostos, irreconciliáveis na forma e no conteúdo. A reunificação do ideal 'vermelho' da justiça social com o ideal 'branco' do Estado nacional dará à Rússia, finalmente, harmonia social."

Ao submeter as relações materiais à superestrutura nacional, Guenadi engloba todo e qualquer ideal nacionalista como benéfico para a Rússia (e aqui cabe questionar como os russos entendem o fascismo, ou seja, mais como um problema estrangeiro, como na Ucrânia, e não um inimigo interno, ao contrário dos nossos intelectuais progressistas). 

Diz Ziuganov que "[H]oje, na Rússia, existem patriotas sinceros, que demonstram seus sentimentos em formas monárquicas, nacionalistas, burguesa-liberal e outras formas com freqüência anti-comunistas. E o que devemos fazer? Empurrá-los para longe por isso? Não, isto seria uma asneira política. Lenin enfatizava que seria ingênuo achar que todos chegariam a uma consciência socialista unicamente pela linha marxista".


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ÂNGELO SEGRILLO, Zyuganov: figura emblemática dos problemas dos comunistas russos pós-soviéticos, 06/2003.

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