O enigma da autocracia eslava: mera tirania ou componente cultural russo?
Sobre a autocracia bielorrussa, é importante destacar o modo como os cidadãos julgam os partidos políticos anti-Lukashenko - tomando como base o número de filiados que eles têm em todo o país, bem como o número de parlamentares que conseguem eleger desde 1994.
Na realidade, nenhum novo partido político no país, seja pró ou anti-Lukashenko, teve grandes sucessos eleitorais desde 2000. Além de serem anti-Lukashenko, os partidos da oposição na Bielorrússia tendem a posicionar-se no amplo espectro político da esquerda e da direita - o que também explica a baixa adesão popular, uma vez que o autocrata, não sendo filiado a nenhum partido, se coloca como o poder que representa o ethos social dominante, não apenas a esquerda ou apenas a direita.
Matthew Frear, teórico do autoritarismo adaptativo, ressalta que os dois partidos de "centro" e de "direita" mais proeminentes em Belarus são "nacionalistas e conservadores". As forças nacional-democratas têm sido tradicionalmente representadas pela Frente Popular Bielorrussa (BPF), cujas raízes remontam à URSS.
Em 1994, o seu líder, Zianon Pazniak, foi um dos candidatos que perdeu para Lukashenko nas primeiras eleições presidenciais do país. Pazniak foi exilado em 1996, e em 1999 fundou o Partido Cristão Conservador (CCP-BPF), que rejeita a cooperação com outros partidos e movimentos da oposição. Hoje, as prioridades do BPF são a preservação da língua e da cultura bielorrussas e "favorecer a democracia, a independência e uma orientação pró-europeia do país".
O Partido Liberal Democrático (LDPB) foi fundado em 1994 e inspirado pelos "nacionalistas liberais", seguidores de Vladimir Zhirinovsky. O seu líder, Siarhei Haidukevich, opôs-se a Lukashenko nas eleições presidenciais de 2001, 2006 e 2015, no entanto, o seu partido também cooperou com o regime em várias situações.
Cabe ressaltar que, ao contrário do que afirma a mídia ocidental, o pensamento politico-ideológico de Lukashenko nunca foi estritamente nacionalista, e são justamente os opositores do regime os nacionalistas mais destacados. Sob Lukashenko, a retórica nacionalista nascente em Belarus foi eliminada, retomando-se a simbologia e a linguagem soviéticas e um concepção de identidade eslava pan-oriental.
A culpa pelos massacres de Kurapaty foi atribuída aos nazistas, e não aos soviéticos. A ideia do pan-eslavismo e da unidade histórica dos eslavos orientais ortodoxos foram revividas na propaganda oficial - e Lukashenko renegou a língua bielorrussa como "pobre demais, sem valor" em comparação com a russa.
É fato que o autocrata bielorrusso sempre foi um nostálgico da união de Belarus com a Rússia, mas, na realidade, o nascimento de uma União mal definida entre os dois vizinhos eslavos nasceu morto, com ambos os lados discutindo o projecto por razões completamente diferentes e, muitas vezes, incompatíveis.
Assim, pode-se dizer que o regime de Lukashenko não é conservador, e tampouco nacionalista estrito. O que impera ali é o sentimento pan-eslavista, com a noção duma civilização russa transnacional ocupando o vazio deixado pelo estalinismo enquanto ideologia de Estado.

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