A guerra e a cruz partida: divisões internas na ortodoxia oriental no Leste Europeu e o cisma pan-ortodoxo

 

Para os leigos em relações internacionais, a questão mais delicada da guerra russo-ucraniana é a identitÁria, sobre a qual a mídia mainstream nada comenta. A Ucrânia, a Rússia e a Bielorrússia reivindicam a Rus Kievana como a origem comum de seus Estados. Assim, por compartilharem uma mesma origem e possuírem laços históricos, é comum o discurso de uma identidade unitária ser empregado para reforçar a noção de um direito da nação russa (discurso que Putin adotou para justificar a operação militar na Ucrânia oriental, que complementa a questão da expansão da OTAN na Europa Oriental com o intuito de "protegê-la" sabe-se lá do quê).

Após o colapso da União Soviética em 1991, a Ucrânia foi uma das primeiras repúblicas soviéticas a conquistar a sua independência e a partir de então, cria-se uma grande divisão interna na Ucrânia entre regiões onde a população possui a língua ucraniana e regiões onde a língua russa é mais falada. Estas questões étnicas e identitárias refletem diretamente na relação de pertencimento desses povos com ambos os países.

Assim, desde então os estamentos e classes ucranianos se dividem entre os que têm uma  postura pró-Rússia (os azuis) e uma vinculação maior com o país e os que preferem o afastamento e um alinhamento maior da Ucrânia com o Ocidente e os Estados Unidos (os laranjas). O ponto de concordância entre esses dois segmentos é a integração da Ucrânia à UE.

O aspecto nevrálgico da questão identitaria é a crise interna grave que a comunhão ortodoxa ucraniana sofre mais agudamente desde 2018.

Resumidamente, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla decidiu em 11 de outubro de 2018, conceder a “autocefalia” à Igreja da Ucrânia, para reintegrar canonicamente dois hierarcas ucranianos (Filaret Denyshenko e Makariy Maletych, já entronizados) à sua hierarquia, anular a Carta Sinodal de 1686 e apelar a todas as partes envolvidas para evitar a apropriação de igrejas, mosteiros e outras propriedades eclesiásticas, bem como qualquer outro ato de violência e retaliação, "para que a paz e o amor de Cristo prevaleçam". 

O Patriarca Ecumênico Bartolomeu assinou um acordo bilateral de coordenação e cooperação com o presidente ucraniano Petro Poroshenko em 3 de novembro de 2018, que, segundo o hierarca, seria o último e passo antes da publicação do “Tomos da Autocefalia” para a Igreja Ortodoxa da Ucrânia.

Esta decisão encontrou a forte oposição do Patriarcado de Moscou, que, em 15 de outubro de 2018, decidiu romper a “comunhão eucarística” com o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, expressou seu total apoio ao Metropolita Onufry de Kiev e sua Igreja Ortodoxa Ucraniana, e apelou aos Primazes e Santos Sínodos das outras Igrejas Ortodoxas para uma avaliação adequada das “ações anti-canônicas”. Hoje existem três igrejas ortodoxas no país: a primeira tem orientação pró-russa, enquanto as outras duas -  e em particular o UOC-KP - são anti-Russia e apoiadas pelo Estado ucraniano.

A primeira é Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Moscou (UOC-MP), em estreita conexão espiritual com o Patriarcado de Moscou e chefiada pelo Metropolita Onufry Berezovsky. A UOC-MP foi fundada em 1990 como uma Igreja autônoma, mas espiritualmente pertence à jurisdição eclesiástica da Igreja Ortodoxa Russa (ROC). Reúne o maior número de fiéis na Ucrânia hoje, pois consiste em mais de 11.000 paróquias, representando cerca de 55% da população religiosa do país.

A seguir vem a Igreja Ortodoxa Ucraniana – Patriarcado de Kiev (UOC-KP), liderada por Filaret Denyshenko desde 1995. Estima-se que possua cerca de 5.000 paróquias. Em 6 de junho de 1992, filiou-se ao "Patriarcado de Kiev" e, em julho de 1995, foi entronizado patriarca. O Patriarcado de Moscou reagiu fortemente em 11 de junho de 1992, excomungando-o e declarando-o cismático, enquanto considerava todas as suas ações como anticanônicas.

Além disso, o Patriarcado de Moscou denunciou as ações de Filaret às outras Igrejas Ortodoxas e pediu que não reconhecessem sua Igreja. De fato, até recentemente, a grande maioria das outras Igrejas Ortodoxas, incluindo o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, consideravam a Ucrânia como uma entidade canônica do Patriarcado de Moscou e não reconhecia a autoridade de Filaret.

A terceira é a Igreja Ortodoxa Autocéfala Ucraniana (UAOC), liderada pelo Metropolita Makariy Maletych. Esta igreja considera-se a sucessora da Igreja Ucraniana que se estabeleceu no país em 1921 e foi restabelecida em 1991 - também cismatica. O número de paróquias seguindo Makariy é estimado em cerca de 500.

Assim, o Patriarcado Ecumênico, considerando que canonicamente tem todo o direito e obrigação de fazê-lo, respondeu positivamente aos pedidos ucranianos. Como primeiro passo, enviou à Ucrânia dois exarcas patriarcais, o arcebispo Daniel de Pamphilon e o bispo Hilarion de Edmonton, a fim de examinar a situação e relatar a Constantinopla.

A esta iniciativa, o Patriarcado de Moscou reagiu e acusou o Patriarcado Ecumênico de flagrante violação da lei eclesiástica e “invasão” no território da única igreja canônica na Ucrânia, ou seja, a UOC-MP.

O Patriarcado de Moscou afirmou que por mais de três séculos a Igreja Ucraniana esteve sob sua jurisdição, pois o próprio Patriarcado Ecumênico, com um ato canônico em 1686, passou para Moscou a jurisdição sobre a Metrópole de Kiev, que era então a Igreja Ucraniana . Desde então, segundo Moscou, essa mudança nunca foi questionada e desafiar documentos eclesiásticos tão antigos não está de acordo com a prática e o ethos da Igreja Ortodoxa. Além disso, Moscou lembrou ao Patriarcado Ecumênico que no momento em que o ROC condenou Filaret por ser cismático, o Patriarcado Ecumênico considerou isso uma questão interna do Patriarcado de Moscou e concordou com a sentença imposta da ex-comunhão.

Consequentemente, de acordo com Moscou, o Patriarcado Ecumênico não tinha o direito de intervir nos assuntos eclesiásticos ucranianos. O Patriarcado Ecumênico, na sua perspectiva, considera que tinha (e ainda tem) todo o direito eclesiástico de intervir, pois é a “Igreja Mãe” da maioria das Igrejas Ortodoxas modernas. Recordou que deu a fé cristã não apenas aos ucranianos, mas também aos russos, constituindo assim a Igreja mãe para os ucranianos, assim como para todos os russos, bielorrussos e outros povos da região mais ampla. Também sustentou que a Metrópole de Kiev estava sob sua supervisão, mesmo após a elevação da Metrópole de Moscou ao status de Patriarcado pelo Patriarca Ecumênico Jeremias II (1589).

De fato, em 1620, quando a Igreja ucraniana foi totalmente latinizada e convertida com seus bispos à Unia, o Patriarcado Ecumênico de Constantinopla demonstrou seu vívido interesse por esta igreja enviando para lá como representante patriarcal o Patriarca de Jerusalém Teófanis III, que ressuscitou a Igreja ucraniana eclesiasticamente: ele ordenou bispos ortodoxos, restaurou o Concílio eparquial da Ucrânia e elegeu o Metropolita local com a sanção do Patriarca Ecumênico sobre o “Ato” de 1686 pelo qual a Metrópole de Kiev passou sob a jurisdição do Patriarcado de Moscou, o Patriarcado Ecumênico respondeu a Moscou que isso foi feito por razões puramente políticas. Mesmo assim, porém, a sujeição da Metrópole de Kiev ocorreu “de modo condescendente” e “por motivos de “oikonomia”, em decorrência das circunstâncias históricas específicas daquele período.

Além disso, o fato de não haver concessão total da Metrópole de Kiev ao Patriarcado de Moscou é claro por mais duas razões. Primeiro, a “Lei” dá ao Patriarca de Moscou apenas o direito de consagrar e não de eleger (a eleição seria feita pelos ucranianos) o Metropolita de Kiev; e segundo, está claramente estipulado no “Ato” de 1686 a obrigação de todo Metropolita de Kiev de celebrar a autoridade do Patriarca de Constantinopla na Divina Liturgia.

Por fim, o Patriarcado Ecumênico sustentou que, de acordo com sua prática estabelecida, a secessão canônica de um território Patriarcal a outro só é possível mediante a emissão de um documento especial, conhecido como “Tomos”, e não por um simples “Ato” ou um "Carta de Emissão” sinodal, como no caso da igreja de Kiev. Segundo a terminologia eclesiástica da época, o termo “Carta de Emissão” significa a concessão de permissão para a realização de uma ordenação ou outro ritual canônico, mas nunca foi usado para denotar a incorporação completa de um território canônico em outra Igreja autocéfala. Consequentemente, o Patriarcado Ecumênico nunca perdeu de jure seus direitos canônicos sobre a Igreja da Ucrânia, apesar da violação dos pontos essenciais do “Ato” de 1686 pelo Patriarcado de Moscou, e nunca negou ou abandonou o "cuidado materno" sobre o Igreja da Ucrânia.

Sem dúvida, para o metropolita Kykkos do Chipre, a decisão unilateral do Patriarca Ecumênico Bartolomeu de conceder autocefalia a um grupo cismático, deposto, anatematizado e não ordenado, ignorando a Igreja canônica existente na Ucrânia sob o Metropolita Onufry, criou um problema eclesiástico extremamente grave, que ameaça a unidade pan-ortodoxa com um cisma de enormes proporções. 

Os patriarcas do trono ecumênico sempre consentirame e afirmaram que a primazia de Constantinopla é somente de honra, não de autoridade. Eles o entenderam como um “primado de responsabilidade e ministério” para conservar a unidade da Igreja na verdadeira fé e amor. Como primaz da sede principal da Igreja Ortodoxa mundial, o patriarca ecumênico tinha, tem e sempre terá os direitos canônicos: 

a. De presidência honorária de todas as Igrejas Ortodoxas Autocéfalas, como “primeira entre iguais” (primus inter pares); 

b. De coordenar as igrejas ortodoxas em questões críticas de interesse interortodoxo; 

c. De expressar e implementar as decisões tomadas após um concílio pan-ortodoxo ou sinaxe dos primazes ortodoxos;

 d. De conceder autocefalia e autonomia, sujeitas ao consentimento e aprovação das demais igrejas ortodoxas autocéfalas; e finalmente, 

e. O patriarca ecumênico, como primaz da sede principal da Igreja Ortodoxa, é o guardião e fiador atemporal, tanto da ordem canônica quanto da operação autêntica do sistema ortodoxo, conciliar e democrático. Qualquer má interpretação ou tentativa de transformar as prerrogativas honorárias acima do Patriarcado Ecumênico em uma “primazia da autoridade” altera a eclesiologia ortodoxa, abole seu sistema conciliar, democrático, e introduz uma autoridade monárquica quase papal, na qual o patriarca ecumênico, transformado em um “Papa do Oriente”, falará ex cathedra para a Igreja Ortodoxa sem a participação dos outros primazes ortodoxos. 





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