Für würdige Arbeit: reflexões sobre a concepção luterana do trabalho e do Estado
Para Lutero, Deus criou um mundo perfeito, com perfeitas condições sociais e de produção, para que todos pudessem viver dignamente. O efeito do pecado, não é apenas condenar a humanidade ao inferno, mas separar o homem de Deus, e corromper toda sua criação. Com o sacrifício de Cristo, o pecador passa a ser justificado pela fé, e um cooperador de Deus para construção de Seu Reino, de justiça e paz. Deus então, vocaciona o cristão a melhorar o mundo.
Sustenta Wachholz, Lutero denuncia a ética medieval (ethica monastica) como ética egocentrada, cujas obras não decorrem de uma provocatio (chamamento para, vocação), mas são obras auto-escolhidas. Segundo Lutero, a ética monástica medieval tem os “olhos” voltados para o céu, motivada pelo medo do inferno e purgatório.
O ser humano que tem seus olhos voltados para o céu é ser humano egoísta, individualista, alienado. Contrariamente, Lutero defendeu uma ética, cujos olhos se voltam para onde estão direcionados os olhos de Deus: a terra. A salvação humana é obra de Deus. Por ser obra de Deus, ela é graça. Crer nesta obra implica no chamado para fora do seu egocentro, para testemunhar a salvação no mundo.
Liberto pela graça e pelo amor de Deus, o ser humano é vocacionado para agir em favor do melhoramento do mundo. Liberto, isto é, tornado justo pela fé, é ser humano que testemunha aquilo que Deus pretendeu na própria criação do mundo: um mundo justo, de relações justas.
Em seus catecismos menor e maior, Lutero interpreta que os mandamentos de “não furtarás” e “não matarás” não se restringe apenas a cometer o ato de furtar/roubar e matar, mas também criar condições institucionais para o roubo e a morte. E não é apenas não vender bens fraudulentos ou “roubar” na balança, mas também quando não cooperamos com a conservação e melhoramento de seus bens.
O Estado, quando não promove as condições mínimas da sobrevivência do povo, na verdade, este Estado, infringe o mandamento de “não matarás”, comportando-se assim como um assassino de seu próprio povo. Portanto, entende o reformador que a não promoção da vida é o mesmo que tirar a vida. No catecismo menor, ele é bem direto ao afirmar que: “Devemos temer e a amar a Deus, de maneira que não causemos dano ou mal algum ao nosso próximo em sua vida, porém lhe ajudemos e o favoreçamos em todas as necessidades da vida.”
O economista Robert Nelson, em sua obra Lutheranism and the Nordic Spirit of Social Democracy: A Different Protestant Ethic (que ainda não tive o prazer de adquirir, só apenas encontrei trechos) defende que o welfare state dos países nórdicos, recebeu muito mais influência do luteranismo do que do socialismo, como se pensava.
Para Nelson, a influência foi tanta que chegou ao ponto de se confundir com a cultura desses países. O autor usa o termo “luteranismo secular” para exemplificar o quanto o luteranismo penetrou e formou a moderna sociedade escandinava, ao ponto de dizer que aceitar as regras sociais surgidas do Estado de Bem-Estar Social, é como se converter a este “luteranismo secular”. Nelson diz: “Como discutirei também neste livro, e talvez surpreendentemente para alguns leitores, os valores e crenças luteranas não apenas foram uma influência fundamental no desenvolvimento da social-democracia nórdica, mas também a social-democracia nórdica pode ser vista como uma forma moderna de religião - um "luteranismo secular". (p. 12)
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