Für würdige Arbeit: reflexões sobre a concepção luterana do trabalho e do Estado

 Trabalho, em Lutero, como sabemos, é mais que uma forma de prover o sustento, é uma vocação. E esta vocação tem um sentido de cooperação com a obra divina na constituição do Reino de Deus na Terra. Lutero via o mundo a partir de três estamentos, onde toda a humanidade estava inserida: politia – envolve o governo e a sociedade civil; ecclesia – a igreja; oeconomia – matrimônio, família e produção da vida. 

Para Lutero, Deus criou um mundo perfeito, com perfeitas condições sociais e de produção, para que todos pudessem viver dignamente. O efeito do pecado, não é apenas condenar a humanidade ao inferno, mas separar o homem de Deus, e corromper toda sua criação. Com o sacrifício de Cristo, o pecador passa a ser justificado pela fé, e um cooperador de Deus para construção de Seu Reino, de justiça e paz. Deus então, vocaciona o cristão a melhorar o mundo.

Sustenta Wachholz, Lutero denuncia a ética medieval (ethica monastica) como ética egocentrada, cujas obras não decorrem de uma provocatio (chamamento para, vocação), mas são obras auto-escolhidas. Segundo Lutero, a ética monástica medieval tem os “olhos” voltados para o céu, motivada pelo medo do inferno e purgatório. 

O ser humano que tem seus olhos voltados para o céu é ser humano egoísta, individualista, alienado. Contrariamente, Lutero defendeu uma ética, cujos olhos se voltam para onde estão direcionados os olhos de Deus: a terra. A salvação humana é obra de Deus. Por ser obra de Deus, ela é graça. Crer nesta obra implica no chamado para fora do seu egocentro, para testemunhar a salvação no mundo.

Liberto pela graça e pelo amor de Deus, o ser humano é vocacionado para agir em favor do melhoramento do mundo. Liberto, isto é, tornado justo pela fé, é ser humano que testemunha aquilo que Deus pretendeu na própria criação do mundo: um mundo justo, de relações justas.


A Igreja, ecclesia e o governo, politia, devem apoiar, garantir e criar condições para uma oecomenia justa, para que todas as famílias possam prover seu sustento. Porém, longe de desembocar no individualismo liberal, preocupado apenas com seu sustento, através de seu orgulho próprio, para usarmos a clássica expressão smithiana. Lutero defendia que as condições de promoção da vida, devem também ser pensadas coletivamente, pois todos dividem a mesma casa comum, a natureza.

Em seus catecismos menor e maior, Lutero interpreta que os mandamentos de “não furtarás” e “não matarás” não se restringe apenas a cometer o ato de furtar/roubar e matar, mas também criar condições institucionais para o roubo e a morte. E não é apenas não vender bens fraudulentos ou “roubar” na balança, mas também quando não cooperamos com a conservação e melhoramento de seus bens.

O Estado, quando não promove as condições mínimas da sobrevivência do povo, na verdade, este Estado, infringe o mandamento de “não matarás”, comportando-se assim como um assassino de seu próprio povo. Portanto, entende o reformador que a não promoção da vida é o mesmo que tirar a vida. No catecismo menor, ele é bem direto ao afirmar que: “Devemos temer e a amar a Deus, de maneira que não causemos dano ou mal algum ao nosso próximo em sua vida, porém lhe ajudemos e o favoreçamos em todas as necessidades da vida.”

O economista Robert Nelson, em sua obra Lutheranism and the Nordic Spirit of Social Democracy: A Different Protestant Ethic (que ainda não tive o prazer de adquirir, só apenas encontrei trechos) defende que o welfare state dos países nórdicos, recebeu muito mais influência do luteranismo do que do socialismo, como se pensava. 

Para Nelson, a influência foi tanta que chegou ao ponto de se confundir com a cultura desses países. O autor usa o termo “luteranismo secular” para exemplificar o quanto o luteranismo penetrou e formou a moderna sociedade escandinava, ao ponto de dizer que aceitar as regras sociais surgidas do Estado de Bem-Estar Social, é como se converter a este “luteranismo secular”. Nelson diz: “Como discutirei também neste livro, e talvez surpreendentemente para alguns leitores, os valores e crenças luteranas não apenas foram uma influência fundamental no desenvolvimento da social-democracia nórdica, mas também a social-democracia nórdica pode ser vista como uma forma moderna de religião - um "luteranismo secular". (p. 12)

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