Novorossyia: as condições de Putin para o fim da guerra no Donbass e o eterno problema do separatismo eslavo
No início da cerimônia, o autocrata discursou a políticos e líderes religiosos e alegou que "as pessoas fizeram suas escolhas", em referência à vitória proclamada por Moscou nos referendos de anexação realizados em Kherson, Zaporizhzhia, Donetsk e Luhansk (a zona chamada por Putin de "Novorossyia", ou Pequena Rússia).
Mas é importante frisar que Putin nunca pretendeu dominar todo o território ucraniano - e a prova cabal disso são os conflitos que o Kremlin teve como os partidos nacionalistas separatistas no Leste da Ucrânia, foco da guerra.
Segundo as crônicas mais recentes sobre a guerra no Donbass, os separatistas, ao contrário do que afirma a mídia ocidental, tem divergências internas - e a divergência à respeito dos Acordos de Minsk foi um dos fatores que impediu o fim do conflito ainda em 2015.
A maioria dos combatentes no Donbass são comunistas, eurasianistas e, em menor número, cossacos nostálgicos de uma república cossaca.
Ainda em maio de 2015, a Guarda Nacional Cossaca contava com cerca de quatro mil integrantes em Donbass e participou, entre outras, das batalhas em Lysychansk e Severodonetsk, duas cidades que fazem parte de uma mesma expansão urbana com duzentos mil habitantes e cerca de 70 quilômetros a nordeste de Lugansk.
Naquela época, Pavel Dryomov, também conhecido como Batya, tornou-se seu comandante. Este ex-pedreiro, natural de Stakhanov, participou da tomada de prédios públicos em Lugansk e dos primeiros avanços rebeldes na região. Por um breve período no verão de 2014, os cossacos dominaram a maior parte do território do LNR e não faltaram aqueles que fantasiaram sobre o tão esperado estabelecimento de seu próprio Estado cossaco.
O ex-agente do Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB), Igor Girkin, proclamou-se Ministro da Defesa do DNR e exigiu que todas as forças da região ficassem sob seu comando. O moscovita Aleksandr Borodai permaneceu como primeiro-ministro e Gubarev, recentemente libertado da prisão, permaneceu como Governador do Povo. Os três faziam parte da facção rebelde que defendia as ideias neoeurasianas de Duguin, muito próximo de Putin na época.
Os separatistas eurasianistas propõem a nacionalização da produção semelhante à imposta durante o período soviético (o stankhanovismo), o que levou à aliança entre eurasianistas e comunistas no Donbass. A diferença é que o eurasianismo enquadra suas propostas em um contexto nacionalista russo e com predominância da Igreja Ortodoxa na vida pública.
Estas ideias foram refletidas no anteprojeto Constituição Nacional do DNR. Ali se destacava a aliança com a Igreja e se estabelecia que o Estado tinha a obrigação de proteger a “família tradicional”.
O principal objetivo e Gubarev, Girkin e Borodai era avançar para o oeste até incorporar finalmente todo o território ucraniano à Rússia, algo que Moscovo não via com bons olhos, sobretudo depois das sanções que se seguiram à anexação da Crimeia. Putin foi rápido em confirmar que isso não iria acontecer.
As manifestações anti Maidan colocaram o comunismo ucraniano em uma posição de liderança que não via desde a queda da União Soviética. Embora não tenha sido o ator principal naquele período, dividiu espaço e presença em um nível semelhante ao do nacionalismo russo, dos duginistas e daqueles que lutaram pela federalização da Ucrânia.
Em outubro de 2014, o Partido Comunista da República Popular de Donetsk (KPDNR) foi fundado com base na filial local do agora banido Partido Comunista da Ucrânia (PKU). Boris Litvinov, até o início da guerra no comando do escritório distrital de Kirova fora de Donetsk, tornou-se secretário-geral. Litvinov foi o segundo presidente do Parlamento DNR, de julho até pouco depois das eleições de novembro de 2014, quando foi substituído por Andrei Purguin, fundador do partido República de Donetsk (DR).
Curiosamente, como aconteceu com o partido Nova Rússia de Pavel Gubarev, o primeiro líder político do DNR, o KPDNR foi proibido de participar nessas eleições. Assim como o neoeurasianismo duginista de Gubarev ou Guirkin, que queria um avanço militar paulatino até que Kiev e toda a Ucrânia fossem tomadas, o comunismo também era algo irritante que precisava ser marginalizado. A possibilidade de estabelecer um sistema socialista em Donbass nunca teve tanto apoio e, em vez disso, decidiu-se manter o status quo econômico.
Ao contrário do KPDNR, o comunismo no LNR nunca teve muito peso no governo local, apenas fazendo parte de uma aliança incômoda com o duginismo. Esta união pragmática entre o comunismo, centralizado na figura de Mozgovoy, e o neoeurasianismo baseava-se em certas coincidências ideológicas à respeito de pautas morais-eticas (sim, os comunistas no Donbass tentam uma simbiose entre stalinismo e ortodoxia) e nacionalização de grandes empresas privadas. A principal diferença era o papel da Igreja Ortodoxa, primordial para o neoeurasianismo duginista e, no mínimo, secundária para o comunismo.
Mesmo sem pretensões de criar regimes comunistas, a liderança do DNR reivindica símbolos e terminologias soviéticas, especialmente quando se fala em guerra. As medalhas atribuídas aos "Heróis do DNR" são muito semelhantes às recebidas pelos "Heróis da União Soviética"; e assim como na URSS, existem “cidades-heróicas”. Celebrações como o Dia da Vitória, o Dia do Exército Vermelho (ou Dia dos Defensores da Pátria), o Dia do Trabalhador e o Dia da Mulher Trabalhadora são particularmente importantes e, mesmo para o centenário da Revolução de Outubro, o DNR e o LNR organizaram inúmeros eventos, enquanto na Rússia o aniversário passou praticamente despercebido.
Canções patrióticas soviéticas tocam no rádio, o sistema educacional soviético foi estabelecido nas escolas, os aniversários de qualquer evento aparecem nas passagens de ônibus, martelos e foices em todos os lugares para reivindicar o regime da URSS.
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