O que realmente é a polarização político-ideológica? La Violencia, o terror como norma na Colômbia pós-Segunda Guerra

 Muito se fala de polarização político-ideologica no Brasil desde a ascensão do bolsonarismo (mescla de florianismo positivista com o liberalismo e o americanismo) ao poder, porém, eu não vejo o brasileiro como intolerante no âmbito das opiniões. 

Somos um povo tranquilo, não afeito à utopias (o comunismo nunca foi aceito pela opinião popular, e a nossa aderência histórica às "terceiras vias", como o trabalhismo católico e o positivismo getulista é prova cabal disso). São os maus políticos que pervertem a nossa concepção da coisa pública. 

Situação muito diferente é, por exemplo, a da Colômbia - onde a polarização ideológica é  intergeracional, com os filhos sendo culpados pelo pai ou a mãe terem sido liberais ou conservadores, de esquerda ou de direita, surgindo assim guerras entre famílias similares às que ocorrem no Nordeste brasileiro. 

A década conhecida como La Violencia - iniciada com o assassinato do caudilho Jorge Eliécer Gaitán em 1948 - crucificou a alma colombiana, naturalizando um tipo de violência brutal que tornaria as guerrilhas elementos culturais do país, fossem elas liberais, conservadoras ou comunistas. 

O historiador Gonzalo Sanchez, comentando sobre o emprego político da violência por guerrilheiros e camponeses liberais e conservadores, lembra que "havia uma liturgia de solenização da morte, que implicavam em  aprender a arte de causar sofrimento. Não só se é morto, mas a forma como se é morto também obedece a uma lógica sinistra, a um cálculo de dor e terror." 

Os corpos mutilados, esfolados ou cremados ficaram inscritos na "ordem mental da terra arrasada. Há manifestações cerimoniais de tortura, por vezes expressas em atos de perversão calculista, como o arrancar a língua (que simbolizava o direito de palavra do outro), o assassinato de mulheres grávidas e remoção de útero (para eliminação da possibilidade de reprodução física do outro), crucificação, castração e muitas outras, destinadas não apenas a eliminar as duzentas mil ou mais mortes do período, mas, além disso, a deixar uma marca indelével nos milhões de colombianos que sobreviveram." 

Diziam que se devia "matar e comer o corpo" do rival, para evitar que o espírito se libertasse do cadáver. Devia-se "cortar a carne" cadavérica como se o espírito que se queria destruir estivesse ali.

Febres políticas, quando realmente constantes numa sociedade, provocam, acima de tudo, um hiato temporal nos indivíduos - a incapacidade de ir e vir, de mobilizar-se para as atividades mais elementares da vida cotidiana graças a uma violência gratuita como a da La Violencia, converte um país inteiro num grande campo de concentração. Estamos muito distantes disso, e a Colômbia devia nos servir como exemplo histórico do que não fazer e quais atitudes não tomar no cenário político. 

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  •  Alonso Salazar, No hubo fiesta, p. 30
  • Gonzalo Sánchez (1990), “Guerra y política en la sociedad colombiana”, Análisis Político, no. 11
  • cit., No hubo fiesta, p. 24

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