Sembrado para la eternidad: o culto e a divinização do chavismo pelo sincretismo venezuelano
Na América Latina é corrente a conversão de figuras políticas em divindades do culto popular. Podemos ver isso, por exemplo, na Argentina - onde Juan Domingo e Eva Perón tem altares dedicados a eles nos lares argentinos - e na Venezuela, que vive sob a sombra de Hugo Chávez, encarado por muitos como o Bolívar redivivo, que conduz o Estado bolivariano desde o mundo dos mortos para o bem dos pobres.
A sacralização da figura de Chávez foi observada pelo antropólogo Michael Taussig, que percorreu a Venezuela no início da década de 1990 e testemunhou, após o golpe contra o Palácio de Miraflores, uma oração sendo proferida num bairro pobre de Caracas em homenagem ao tenente-coronel:
"Chávez nuestro que estás en la cárcel, santificado sea tu nombre, venga a nosotros tu pueblo, hágase tu voluntad, de la nuestro país, la de tu Ejército, danos hoy la confianza ya perdida y no perdones a los traidores, así como tampoco perdonaremos a los que nos traicionan, no nos dejes caer en la corrupción y líbranos del presidente. Amén."
Para seus seguidores, Hugo Chávez não morreu, mas foi "sembrado", o que equivale às raízes que para eles brotam da árvore que representa seu legado. Ele é chamado de santo-presidente dos pobres, desamparados, negros e indígenas.
Para entender melhor esse culto cívico-religioso ao falecido presidente, o sociólogo Luis Alonso Hernández visitou por 4 meses a famosa paróquia 23 de Enero, localizada no bairro de mesmo nome, no setor La Planicie, a cerca de 200 metros do Quartel da Montanha, instalação militar onde repousam os restos de Chávez e que serviu de quartel para suas tropas golpistas em fevereiro de 1992.
Elizabeth Torres, guardiã da paróquia, define Hugo Chávez como um "ser vergatario" - um ser divino enviado diretamente dos Céus, com permissão para "endireitar" a Venezuela, "para que o povo desprotegido despertasse, assim como Simón Bolívar foi enviado há 200 anos". As entidades "vergatarias" não morrem, mas continuam interagindo na terra, assim como alguns heróis patrióticos, incluindo o Libertador, Simón Bolívar, a quem é prestada homenagem em alguns estados do país.
Luis Alonso relata que, além da capela 23 de Enero, também havia nos lares de algumas devotas a imagem do Comandante Chávez colocada em altares, junto do Sagrado Coração de Jesus, da Virgem Maria, do médico-santo José Gregorio Hernández e de Bolívar - devoções que foram condenadas pela Conferência Episcopal Venezuelana como idolátricas.
O sociólogo reuniu também testemunhos de curas milagrosas atribuídas ao "Santo Hugo Chávez del 23", a quem a paróquia foi dedicada. Elizabeth relata que, por dois anos consecutivos, uma senhora colombiana subiu mensalmente 23 de Enero para agradecer porque Chávez lhe fez um favor: seu filho havia sido sequestrado pela guerrilha colombiana e ela não tinha como pagar o resgate. Ela prometeu um coração de rosas vermelhas se o rapaz chegasse em casa são e salvo - e o rapaz voltou para casa.
Outro caso é o Maria del Carmén (nome fictício), quem atribui à Hugo Chávez sua cura. Ela sofreu um acidente de trânsito em 2014, que a deixou em uma cadeira de rodas por meses, afirma que o primeiro passo é acreditar cegamente no "comandante eterno e supremo", rezar à ele, visitá-lo na paróquia e acender uma vela em sua honra sempre que possível.
A politização do cristianismo e do sincretismo venezuelano pelo chavismo é comum. No ano passado, o presidente Nicolás Maduro expressou sua admiração e alegria pela "Marcha para Jesus", realizada neste 12 de outubro, em várias localidades do país - especialmente no estado de Sucre e em Caracas - que ele descreveu como belas e emocionantes, demonstrando a fé e o amor do povo venezuelano que, em oração, pede pela paz e felicidade da nação.
"Bonita a mobilização 'Marcha para Jesus, realizada pelo povo cristão de Cumaná, no estado de Sucre, com sua nobreza, amor e união em oração pela Paz e felicidade da Venezuela", expressou em uma primeira mensagem através de sua conta nas redes sociais.
"Que a bênção divina de nosso Senhor Jesus Cristo ilumine a Pátria e faça florescer os caminhos da Paz no mundo inteiro", acrescentou sobre a mobilização na capital venezuelana, em suas mensagens.
"Com a Bênção de Deus, continuaremos avançando. Meu abraço, irmãos e irmãs!", desejou, em reconhecimento presidencial a essas atividades multitudinárias.
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- Luis Alonso Hernández, Redes y controversias en el culto a San Hugo Chávez del 23, XII Jornadas de Sociología. Universidad de Buenos Aires, 22 a 25 de agosto de 2017.
- Miguel Tinker Salas, Venezuela: What Everyone Needs to Know Miguel Tinker Salas, 2015.
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