Tudo pela Raça, nada contra a Raça: o nazismo como reavivamento do Völkstum grego em Chapoutot


Historiadores mal-intencionados, como Marco Antônio Villa e João Cezar de Castro Rocha, acusam os nazis e os fascistas de terem odiado a cultura acadêmica - e, claro, criam um nexo absurdo entre eles e Bolsonaro, que nem a elite acadêmica criou (eu decidi não falar mais de "bolsonarismo", pois as ideias confusas do ex-presidente nunca conformaram uma ideologia).

É apócrifa a frase atribuída a Goebbels de que, quando ouvia falar de cultura, ele preferia sacar sua arma. Johann Chapoutot, na sua análise da revolução cultural nazi, derruba esse e outros mitos sobre o regime.

Na relação com a filosofia grega, por exemplo, os nazi, pelo seu biologismo inato, criaram uma linha direta entre os germânicos, nas palavras de Chapoutot, relacionado o Reich com o Volkstum grego (o 'povo e a raça').

O destino do Volkstum grego, no entanto, é importante para os nazi, como pode ser verificado pela abundante literatura histórica, antropológica e de ciência política, quer académica quer popular, dedicada a ele. Os historiadores conseguiram demonstrar toda a importância que os nazi atribuem à anexação da Grécia antiga à raça nórdica.

O mito promovido pelo Estado nazi era que os gregos são da raça germano-nórdica, que as cidades gregas foram fundadas por tribos de soldados camponeses do Norte. Os gregos eram grandes, sublimes, mas desapareceram do grande cenário histórico do mundo. 

O destino da Grécia antiga é, portanto, fonte de ensinamento para a nova Alemanha: a sua grandeza iria trilhar os caminhos já trilhados por um grande povo nórdico da Antiguidade. O seu declínio seria evitado se tirassem lições da morte dos gregos como civilização hegemônica.

A filosofia nazi expressa assim um estado da raça: o logos nada mais é do que a voz do ethnos e do seu estatuto racial. A filosofia é forte, decidida, voluntária na medida em que expressa a força do sangue ou a sua regeneração. Pelo contrário, é individualista ou pessimista na medida em que expressa a degeneração, a sua lenta descida para o emaranhado da mistura e da falta de diferenciação entre grupos étnico-sociais. 

Se for heróica e aristocrática, expressa claramente a pureza dum sangue nórdico ainda imaculado - se, pelo contrário, é democrática e igualitária, comete o crime imperdoável de misturar um sangue místico com o sangue sujo de outras raças.

Nesta história, Platão ocupa um lugar privilegiado: é o representante por excelência do pensamento grego nórdico-germânico, o primeiro termo da história da Weltanschauung helénica que termina com a dissolução, a alteração definitiva e a rejeição do ideal aristocrático nórdico. O Platão metafísico e teórico das ideias foi, para os nazi, a personificação dum humanismo desencarnado e do racionalismo hipertrofiado.

O Platão nórdico aparece como a antítese perfeita desse Platão abstracionista. Longe de ser um estudioso frágil, ele é, para Hans Günther, a personificação do homem completo, um pensador poderoso, atleta emérito e guerreiro completo ao mesmo tempo.

Não é de surpreender quando se pensa, como lembra Günther, que Platão era um homem nórdico “vindo da mais alta nobreza da Ática, onde, até uma idade avançada, o sangue nórdico da helenidade original foi melhor preservado em Atenas”. Platão é, então, a encarnação daquele homem nórdico completo, que levou ao seu pleno desenvolvimento os talentos físicos e intelectuais cujos germes sua raça carregava.



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