O tiro na orelha de Donald Trump: uma breve reflexão sobre a concepção americana de autoridade

Sobre o suposto atentado contra Trump, a função do analista político (bem como do sociólogo e, em certa medida, do historiador político) é teorizar sobre os possíveis efeitos políticos e sociais do ocorrido, e não questionar se realmente houve ou não um atentado. 

Na tradição política americana, os assassinatos políticos são traumáticos, independentemente do caráter ou da conduta moral dos presidentes assassinados (vide o caso de John Kennedy, que teria tido várias amantes e, ainda assim, é rememorado por ter sido morto).

Podemos dizer que, nos países em que o catolicismo confluiu-se com o positivismo estatal, a concepção da autoridade é muito mais emotiva e irracional - diferentemente dos Estados Unidos, onde o assassinato dum mandatário é interpretado pela sociedade como um golpe contra as instituições sociais  (e a tradicional descentralização federalista americana é a base desse "orgulho institucionalista").

O atentado contra o presidente é visto como um atentado contra a coletividade,

conformada pelas "instituições", a nação americana. Podemos comparar atos dessa natureza ao abandono de militares  abatidos por seus colegas americanos - a carga moral desse comportamento é enorme. 

Podemos tomar como exemplo, na América do Sul, o do caudilho Jorge Eliécer Gaitán, cuja morte, durante muito tempo, foi considerada um marco no período conhecido como La Violencia, em que a violência política na Colômbia atingiu níveis indescritíveis. 

Acredito que essa diferença se deve a noção de autoridade legada pelo catolicismo romano: historicamente, a escolastica católica (especialmente a tardia ibérica) reconhece que o assassinato dum mau governante é um ato legítimo, sobretudo quando o governante ataca o culto divino. Aqui identificamos a permanência da confusão entre res publica e Igreja (não entre Estado e Igreja, pois o Estado não se confunde com a coisa pública).

No caso americano, as lideranças são vistas como meros agentes institucionais, cuja autoridade não provém deles mesmos, ou de Deus, ou das igrejas, mas das próprias instituições que representam.

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