"Pablito, venga a nosotros tu Reino": uma breve reflexão sobre o lugar do narcotráfico na santería latina

Ainda se discute muito sobre a natureza do crime organizado nos países latinos - especialmente em períodos eleitorais, quando finalmente as autoridades locais investem mais em segurança pública (no caso do Rio de Janeiro, mais em policiamento ostensivo em áreas até então esquecidas pela Prefeitura). 

E onde e o historiador (e também o sociólogo, no que diz respeito à epistemologia social) entram nesse debate? Em duas frentes de pesquisa: no estudo da formação histórico-social dos grupos e organizações criminosas e na busca pelas bases sociais de sua manutenção em sociedades desiguais como os países andinos e o Brasil.

Assim, vale questionarmos por quê hoje há uma confusão, corrente entre classes populares, de elementos criminosos com a santería popular na América do Sul (que engloba desde os cultos afro-americanos sincréticos até o devocionismo católico popular). 

A santería latina, têm-se notado, absorveu e mistificou o consumo de drogas ilegais e a violência organizada. Os melhores exemplos disso hoje são o culto à Santa Morte (e existe até mesmo uma seita organizada e hierarquizada em torno desse culto no México) e à devoção ao Pablito, o narcotraficante Pablo Escobar. 

Alonso Salazar, o maior biógrafo de Escobar (o seu livro Ascensão e Queda de Pablo inspirou a série colombiana premiada em 2012, El Patrón del Mal), criando o personagem fictício Arcángel para ocultar a identidade de conhecidos e amigos de Pablo que preferiram o anonimato, conta como foi a sua primeira visita ao túmulo do ídolo periférico em 1995: "Arcángel me falou da peregrinação incessante a esse túmulo. Para  lá vai gente procedente de todos os rincões, de países distantes, mas  principalmente muitos colombianos. 

Alguns vão por simples curiosidade; outros para lhe prestar um tributo de admiração, e outros ainda  para implorar favores. Uns fazem isso silenciosamente, mas há aqueles  que, ao contrário, perturbam a paz do defunto para lhe agradar. Com  certeza são bem-sucedidos, porque ele sempre gostou de pessoas simples". (p. 17).

Dando um relato do anônimo, Alonso escreve: "Certa madrugada, não há muito tempo, chegou um grupo de  rapazes que, depois de uma rumba, começou a saudá-lo aos gritos e a oferecer-lhe uma garrafa de uísque, que, como numa homenagem,  derramaram sobre a grama."  Por seu espírito guerreiro e generosidade, Pablo tinha a admiração sem limites da gente do povo. Ele próprio demonstrou isso quando, na  prisão de La Catedral, recebeu milhares de cartas de jovens, crianças,  meninas, padres, juízes, freiras, esportistas e estudantes universitárias. 

"Ninguém o substitui no mundo, não existe ninguém como você, nunca houve e jamais virá a existir", escreveu-lhe uma mulher humilde que  vivia no depósito de lixo de Bogotá, e recebeu uma das quinhentas casas  construídas por ele no bairro da Virgem Milagrosa (construídas com fins eleitorais, quando Escobar era candidato a suplente do senador Jorge Ortíz). Outros lhe pediam perdão por sua vida, lhe davam parabéns por ter-se entregado, o adulavam ou pediam autorização para vê-lo. Ele próprio mostrou a sua mulher uma carta na qual algumas universitárias de Bucaramanga, jovens e  virgens, lhe ofereciam sexo, como se para elas isso fosse uma honra.  

Arcángel, o personagem anônimo de Salazar, disse que iam até seu túmulo em Montesacro pessoas que ainda choravam sua morte por considerá-lo um homem de bom coração. Peregrinavam seguindo sinais recebidos em sonhos: Pablo as ajudaria a conseguir casa, a pagar dívidas ou ganhar na loteria. Aqueles cujos pedidos já haviam sido atendidos asseguravam que, se deixassem de visitá-lo todo ano, iriam se dar mal.  

Há gente que convoca o espírito poderoso de Pablo Escobar entoando rezas, sozinhos ou acompanhados, com o santinho que traz sua  fotografia, repetindo com fervor uma oração que certa vez uma anciã  criou para ele:  

"Multiplicai-me se necessário; 

fazei que eu desapareça  

quando for preciso.  

Convertei-me em luz  

quando for sombra;  

Transformai-me em estrela  

quando for areia..." (p. 19).

Durante o "sepultamento" de Escobar após ser morto no telhado duma casa no bairro Los Olivos, Medellín, podia-se ver pessoas com cartazes como "Virgencita, ayuda al Pablito!", pedindo pelo bem de sua alma. Popeye, um dos maiores sicários do Cartel de Medellín, lembra que, no dia em que Pablo foi executado, o país "enlouqueceu". Cesar Gaviria, presidente na época, era chamado de assassino pelo "populacho", a gente pobre de Medellín - os paysas, que se consideravam os colombianos puros, que não tinham nada a ver com a gente branca e rica de Bogotá ou da zona nobre de Medellín.

Alonso Salazar, noutra obra, escrita três anos antes da morte de Pablo Escobar, toma o testemunho do sicário "Antonio", enquanto este estava internado após sofrer uma tentativa de assassinato. O jovem paysa descreve, como num delírio, o ritual de "ingresso" que os membros de sua gangue - jovens pobres de Medellín - eram obrigados a realizar para "entrarem no submundo" definitivamente: "Sobre a lua redonda surge a silhueta dum gato sem cabeça, pendurado pelas patas. No chão, numa tigela, seu sangue foi recolhido. Agora só caem algumas gotas, pausadamente. Cada gota forma pequenas ondas, que crescem até formar um mar tempestuoso. 

Ondas sonoras agitam o ar ao ritmo dum rock pesado, tocado em volume máximo. No chão está a cabeça do felino, ainda com seus olhos verdes e luminosos abertos. Quinze pessoas participam do ritual. Ao fundo, vê-se a cidade [Medellín].

Num copo, sangue quente foi misturado com vinho - sangue de gato, esse bichinho que escala muros, [...] que anda silenciosamente sobre as almofadas [...], que escorrega facilmente entre as sombras da noite. Sangue felino, que o impulsiona a saltar sobre a presa com destreza e segurança. Esse sangue que convoca energias estranhas e acelera a alma.

Antonio lembra das cenas de seu ritual de iniciação em uma das gangues juvenis lá dum bairro nobre da comuna nordeste. Em seu sonho febril e agonizante, ele se vê novamente no terraço. No mar de luzes da cidade, silhuetas caprichosas sem movem. Elas brindam para selar o pacto coletivo, as palavras são dispensadas porque conhecem o compromisso, a lei, as recompensas e os castigos. 

Dali em diante, todos responderão por todos, como um só corpo. Serão os reis do mundo".

Toda essa nostalgia em torno de figuras tenebrosas (e cujas histórias toda a gente conhece bem) abrem a seguinte questão: em que medida práticas cultuais e religiosas sincréticas, bem como a mistificação do crime e da violência suburbana, contribuem para a naturalização do crime organizado nos países andinos? 

Se esses elementos de fato contribuem para a formação duma cultura que normaliza o narcotráfico, o paramilitarismo e o assassinato profissional dos sicários, como é na Colômbia, é válido fazer estudos comparativos dessas organizações com, por exemplo, as máfias italianas, ou cada organização criminosa deve ser analisada em seus contextos de origem? 

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  • SALAZAR, ALONSO, Ascensão e Queda de Pablo Escobar, ed. PLANETA, 2014.
  • ----------------------------, No nacimos pa' semilla, ed. AGUILAR, 2018
  • ----------------------------, No hubo fiesta, Crónicas de la revolución y la contrarrevolución, Penguin Random House Grupo Editorial Colombia, ed. 2017.

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