Portugal e Espanha: incêndios políticos na Ibéria

 Analisando os vai e vens da política interna portuguesa, encontramos um cenário oposto ao da Espanha de Pedro Sánchez, mas para os social-democratas: o governo de Luís Montenegro (PSD) é minoritário, com apenas 80 deputados, contra 50 do CHEGA, de André Ventura, e grande contingente do Partido Socialista, que cresceu nas sondagens - mostrando a possibilidade de retorno da esquerda ao poder. 

Mesmo formando uma coligação eleitoral que visava ressuscitar a AD de Sá Carneio, o bloco PSD-CDS-PP-Partido Popular Monárquico não obteve maioria no parlamento, tendo agora de andar na corda bamba, fazendo concessões ao PS para que seus parlamentares votem a favor do Orçamento de 2025. 

Montenegro acusa o CHEGA, após 100 dias de governo, de pressionar o governo direitista junto com o PS, "comendo o fruto proibido e apodrecido" da união com os socialistas que tanto diz odiar. E ressalta que "a Nação está em transformação", pois o governo avança na aprovação de seus projetos, e a oposição vive no caos. É, penso eu, uma "atualização democrática" do discurso salazarista "Tudo pela Nação, nada contra a Nação". 

É fato que a direita espanhola, de acordo com as sondagens, segue forte, porém, a concepção do Estado social ali e em Portugal pela direita não difere tanto da da esquerda. Em Portugal, somente o CHEGA aparece como "alternativa privatizante", mas isso com muitas aspas. 

Luis Montenegro têm falado sempre de moções de censura, como acusa André Ventura, num espírito "neocavaquista". E acusa o premiê de fechar com o PS para impedir a imigração controlada. E o interessante posicionamento do CHEGA contra as "grandes empresas" em favor da classe média se aproxima do dos socialistas, que denunciam a sobrecarga de impostos sobre os pequenos comerciantes. 

Enquanto na terra de El Rei Dom Felipe, Sánchez se mantém acuado pela coligação PP-Vox (que agora é forte na Catalunha, onde o PP obteve 15 cadeiras, se tornando a quarta força política depois do Vox na região), fazendo concessões aos separatistas sem apoio popular, a direita portuguesa se aferra ao ordenamento jurídico vigente, alegando que o programa de governo deve ser executado (50 projetos de lei do governo já passaram desde o início da legislatura, apesar da forte oposição), apesar da confusão oposicionista.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mafia: The Old Country - uma perspectiva histórica

Madame Crysanthème e a narrativa gótica feminina em A Mulher dos Olhos de Gelo

Breve resenha de O Fascismo no Sul do Brasil - Germanismo, Nazismo e Integralismo, de René Gertz