Imperadores louros, mandarins e czares: como o trumpismo pode literalmente mudar o mundo

 

Dentre as lendas populares medievais acerca do milênio, uma delas preconizava a chegada dum grande rei louro (não se sabe se de origem germânica ou nórdica), que instauraria a paz perpétua na Europa (embora se trate duma lenda especificamente franco-germânica, similar a tantas outras sobre o "ano mil" que o cronista Raul Glaber nos legou).

Seria Donald Trump esse rei louro? Com certeza não, mas ele têm, tal como um Carlomagno, o orbe terrestre nas mãos agora. E não é tosco nem exagerado usar essa figura para simbolizar o valor da geopolítica trumpista para o tempo presente.

Antes de mais nada, condeno o racismo anti-imigrante do trumpismo - qualquer forma ou tipo de discriminação ou estímulo a ela deve ser criminalizado e condenado. Mas, em que pese os resultados da eleição americana, o retorno do trumpismo à Casa Branca mostra que o discurso republicano duro de Trump é uma construção histórica que remete ao reaganismo (quando Ronald Reagan fez uma propaganda diretamente voltada para os latinos, incluindo-os no american way of life). E, em 2024, cerca de 40% dos homens latinos votaram em Trump - considerando também o voto católico flexível, que desconsiderou temas morais-éticos trazidos para a campanha.

E a própria postura trumpista acerca da imigração é ambígua: Donald toma como referência a iniciativa de Dwight Eisenhower para lidar com a imigração ilegal na fronteira ocidental americana, que se tornou conhecida pelo nome de Operação Costas Molhadas (Operation Wetback). Houve um esforço conjunto entre o INS (Serviço de Imigração e Naturalização) e o governo mexicano. Foram criadas equipes especiais de imigração para processar e deportar imigrantes ilegais rapidamente.

Uma das razões para ter funcionado, segundo Trump, é que as pessoas apanhadas eram entregues a agentes do governo mexicano, que as transferiam para a região central do México, onde conseguiam encontrar empregos. No primeiro ano, mais de um milhão de pessoas foram deportadas. Ao mesmo tempo, o trumpismo sempre foi favorável ao estímulo da imigração universitária pelo Estado americano.

No que diz respeito ao conflito no Donbass (hoje Novorossyia), o trumpismo deve agir de modo mercantilista, interrompendo o financiamento direto da guerra em favor de Kiev. Considerando a impossibilidade da retomada dos Tratados de Minsk, Kiev agora é incapaz de recuperar o Leste ucraniano, o que significa que a divisão territorial da Ucrânia soviética em duas - tendo como fronteira o rio Dnieper - é inevitável.

Quanto ao gigante chinês, o trumpismo colocou tanto os democratas quanto os republicanos no campo protecionista, o que é o pavor dos oligarcas amarelos. É óbvio que a China, mesmo perdendo mercados nos EUA com o retorno de Donald ao poder, gradualmente irá ocupar o vazio militar que os americanos vão deixar no âmbito global. O essencial é pacificar o Leste europeu para isolar a Rússia e, assim, ter somente a China como adversária à altura.

E como o Brasil vai se situar nesse tabuleiro? Creio eu que o lulismo, eternamente ataráxico, tentará se aproximar da China e, ao mesmo tempo, se ancorando no Partido Democrata para garantir a "governabilidade na estagnação" característica de Lula (especialmente no tocante ao controle da inflação).

E vale lembrar aos analistas de ocasião que a esquerda nacionalista tem no trumpismo econômico um referente positivo. Ciro Gomes, desde 2018, afirma que medidas protecionistas adotadas por Trump - como a proteção de empresas como a Huwaei do domínio chinês e a criação de fundos nacionais para alocação de recursos - são essenciais para a sua "democracia energizada".

Pensando nos palestinos, não acredito que o nacionalismo judaico vai considerar a possibilidade de um Estado palestino. Muito se fala disso, mas ninguém procura explicar como será constituído esse Estado (que, no projeto palestino, ocuparia até mesmo a Jerusalém setentrional, indo muito além do que querem os likudistas para a Faixa de Gaza. Mas creio que Trump poderá mudar de posição quanto ao financiamento de Israel para evitar uma crise maior com o Irã.


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GOMES, CIRO, Projeto nacional: o dever da esperança (2020)

ZELIZER, JULIAN, The presidency of Donald Trump (2022)

TRUMP, DONALD, América Debilitada: como tornar a América grande outra vez (2016)

MARTINS, CARLOS EDUARDO, Algumas observações sobre as eleições nos Estados Unidos (2024), Disparada - Vamos Debater o Brasil?, Redação Disparada 

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