Síria decapitada: o fim da era Assad e os impactos culturais do fim da ditadura


A dinastia baathista alauita caiu depois de seis décadas dominando Damasco, numa luta constante com a oposição sunita e seu braço armado que afundou a Síria pós-colonial numa guerra civil inominável. 


Entrando na esfera cultural do conflito iniciado em 2011, cabe ressaltar que o Islão nunca conseguiu construir na Síria um Estado e uma identidade nacional coesos. Os próprios omiadas precisaram conviver com burocratas cristãos de Damasco, que sob o califado de Omar se tornou o novo eixo do mundo muçulmano, até então restrito à Península Árabica.


 O próprio Omar, ostentando seu talit pelas ruas da Jerusalém conquistada dos persas e se ajoelhando no Domo da Rocha no monte Moriá, compartilhou a administração do Estado sírio com burocratas judeus e cristãos orientais. 


O xiismo alauita, entendido como um produto obscuro dos álidas duodecimanos (que aguardam a vinda do Madhi, o iman oculto), são considerados heréticos pelos sunitas e mesmo por outras correntes xiitas devotas de Ali ibn Abi Talib por incorporarem elementos cristãos e zoroástricos persas. Em razão disso, os juízes-teólogos xiitas do baixo-medievo emitiram uma fatwa contra os xiitas alauitas que os define como moralmente piores que os cristãos e os judeus, tão merecedores da jihad quanto eles.


Ao empunharem o sabre do Estado Islâmico (o governo terrestre de Alá) sob o sol de Damasco, os sunitas derrotaram também o mundo cristão. A Síria contemporânea, sob a mão pesada dos Assad, conservou muito do patrimônio paleo e tardo-cristão. O Krak dos Cavaleiros, fortaleza construída na costa mediterrânica síria, foi utilizada pelos combatentes hospitalários durante as cruzadas, e bombardeada em 2013.


Partindo da costa para o sul, rumo a Damasco, se encontra a Rua Direita em que o Apóstolo Paulo experimentou sua primeira teofania, vendo Jesus no céu. A noroeste da capital, a vila de Maalula é talvez o ultimo local em que ainda se fala o aramaico antigo. 


Na zona norte de Alepo (que, com Hama, Homs e Damasco abriga 80% dos sírios), há inúmeras igrejas ortodoxas sírias, uniatas e ortodoxas armênias dentro de bairros cristãos. E também em Alepo fica a igreja bizantina dedicada a  Simeão Estilita, quem criou um gênero de ascetismo tão duro quanto o dos monges errantes - e que lhe valeu a reprimenda dos monges coptas e, há quem diga, sua excomunhão pelo Patriarcado alexandrino.


Os alauitas, durante seis décadas no poder, deram ao Estado sírio sua face atual, apesar das divisões internas inerentes à sua constituição pós-colonial, e os sunitas  agora vão acentuar ainda mais esses conflitos em nome da jihad santa e vilipendiar o patrimônio cristão antigo.


--------------------------

• LESCH, D. W., Síria: Uma História  Moderna (2019), Edições 70, trad. Ricardo Mangerona.

• TREAGOLD, W., Breve História de Bizancio (2001), Ed. Grudemi, Paidós, Barcelona.

• COLOMBAS, G. M., El monacato primitivo, BAC, 2a ed., 1998, 2a imp., 2004.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Mafia: The Old Country - uma perspectiva histórica

Madame Crysanthème e a narrativa gótica feminina em A Mulher dos Olhos de Gelo

Breve resenha de O Fascismo no Sul do Brasil - Germanismo, Nazismo e Integralismo, de René Gertz